quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Doutores do asfalto

Ontem à noite, quando retornava da festa dos professores da escola, passei em frente ao posto Shell no exato momento da chegada dos ônibus universitários. Inevitavelmente fui tomado por um forte sentimento nostálgico, ao lembrar dos tempos de faculdade de História em Santo Ângelo e dos quatro anos de estrada. Apesar de todo o cansaço, dificuldade e imaturidade, aquela época era muito boa e divertida; até hoje guardo as melhores recordações em minha memória.
A aventura nossa de cada dia iniciava-se pouco depois das 18 horas. Eu embarcava na parada em frente ao posto Shell (que na época ainda era Esso e até hoje muitos o chamam assim), que ficava três quadras de casa. O balanço do ônibus tinha o mesmo efeito de uma canção de ninar, afinal, logo depois do trevo da CESA já estava dormindo, sendo acordado apenas por algum colega ao chegar na universidade. O sono tinha um efeito renovador, pois havia trabalhado o dia inteiro e somente ele para me deixar ligado a aula. Infelizmente, hoje não tenho mais esse privilégio de sestear antes dos estudos.
Apesar da constante disputa de interesses, o ônibus universitário era o local mais democrático do mundo. Tinham aqueles que preferiam dormir, como eu. Outros se dedicavam a contar piadas e histórias mirabolantes, uns a jogar truco, os cdfs iam estudando ou lendo o trajeto inteiro, os certinhos sentavam bem na frente e os casais apaixonados se pegavam no fundão, geralmente na volta, aproveitando-se do escurinho. A sexta-feira, principalmente no início do semestre, era o dia mais divertido, especialmente no retorno. A galera fazia uma vaquinha e comprava cerveja para ser degustada durante a viagem. Uns abusavam e passavam mal, outros ficavam bem mais “fáceis”. O posto em São Miguel era parada obrigatória para comprar polenta banhada em óleo, altamente rica em colesterol. Tudo era uma festa!
Podíamos saber pouco de matemática, direito, história ou biologia, mas conhecíamos os segredos da estada em que viajávamos todo dia. Chegar atrasado na aula, furar um pneu ou acontecer um problema mecânico, parar por longos minutos porque estavam consertando a estrada, testemunhar acidentes e motoristas imprudentes, enfrentar temporais, dar “carona” para os colegas do outro ônibus porque o deles estragou, levar uma ralhada de quem queria dormir... Esses eram fatos comuns do nosso cotidiano e que tornavam a jornada mais emocionante.
Passaram-se sete anos desde a minha formatura e a saudade é cada vez maior! Hoje eu não teria mais a mesma disposição para essas epopeias, assumi novos compromissos e estou mais velho, mas aquele tempo foi muito bom, uma baita experiência de vida.

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