terça-feira, 21 de abril de 2015

Mistérios da meia-noite

Os sete anos do caso do lobisomem de São Luiz Gonzaga.

Escrita em 06/04/2008, publicada pela primeira vez hoje.

Já se aproximava da meia-noite de uma sexta-feira. A lua cheia brilhava no céu com poucas nuvens. A cidade de São Luiz Gonzaga estava mergulhada em um silêncio aconchegante. As pessoas dormiam, pois o dia seguinte ainda seria de muito trabalho. De longe se escutava a música de algum bailão que tinha na cidade. Por perto um cão uivava para a lua. Eu caminhava em direção a minha casa, voltando da faculdade em Santo Ângelo. Eram três quadras que eu fazia todas as noites, há mais de dois anos. Conhecia o caminho perfeitamente. Aquela sexta-feira era um dia especial, como todas as outras, pois marcava o fim de uma semana cansativa de estudos, provas e viagens.
Após descer do ônibus e percorrer uma quadra, para minha surpresa, me deparei com um vulto, na esquina escura. Cheguei a pensar que fosse um assaltante, mas ao me aproximar daquela “coisa”, para meu alívio, vi que se tratava de um bicho de quatro patas e cabeça achatada. Afinal, perder meu dinheiro que é bem contado e às vezes ainda falta no final do mês, para um larápio não estava nos meus planos. O sino da igreja começava a dar as doze badaladas. Era meia-noite em ponto.
Passado o susto inicial, fiquei tentando decifrar o que era aquele ser esdrúxulo. Seria um terneiro? Um cachorro? Não, não era nada disso. Foi aí que percebi que eu estava diante do são-luizense mais famoso dos últimos tempos: o Seu Lobisomem. É, ele mesmo, com suas lentes de contato exóticas, de cor avermelhada. Bem que ele podia ter um gosto melhor e escolher umas verdes ou azuis. Se me falassem eu não iria acreditar, mas como eu vi com meus próprios olhos, posso contar para todo mundo. Tentei pedir um autógrafo, mas pelo jeito o Lobisomem não sabia escrever. Coitado! Sua alfabetização deve ter sido em escola pública, deve ter sofrido com a enturmação, que certamente já deve ter ocorrido outrora. Além disso, o salário de sua professora não deve ter sido dos melhores. Mas imagina! Eu ficaria famoso, pois ostentaria o autógrafo do cara. Com certeza iria aparecer na imprensa. Eu e a assinatura dele.
Eu queria ter um dedo de prosa com ele. Mas ele estava imóvel. Não falava nada, ou melhor, não uivava. Cheguei a pensar que eu fosse um cara muito feio. Será que ele estava assustado comigo? Ele devia ter algum problema em suas cordas vocais, ou algum problema sério de saúde. Emocionado em me ver ele não estava, com toda certeza. Afinal, além de mudo, os pelos em excesso no corpo demonstravam algum problema genético. Como a saúde pública no Brasil está e sempre esteve um caos, o pobre do Lobisomem não teve acesso a um tratamento. Cansou de esperar na fila do SUS e desistiu de realizar um tratamento médico.
Como o Lobisomem é corajoso. Sair pelas ruas de São Luiz Gonzaga, tapadas de buracos, ainda mais à noite. O cara é bagual mesmo. Não deve ter medo de cair num buraco e se machucar. Deve ser por isso que ele anda a pé. Já deve ter quebrado o seu carro em alguma panela da cidade. Dizem por aí que o Lobisomem era motorista. Dirigia uma variante 75, mas as ruas de São Luiz Gonzaga terminaram com seu modesto carrinho. Mas como que ele tirou carteira de motorista se não sabia nem escrever? Certamente ele deve estar envolvido nas fraudes do Detran. Dizem as más línguas que ele tinha ligação com os caras. Deve ter comprado sua habilitação. Mas se isso é verdade, daqui uns dias o Lobisomem vai ser intimado para depor na Assembléia Legislativa, na CPI do Detran. E ainda de lambuja vai saborear uma deliciosa pizza na capital.
Mas já que estamos falando em política, e o seu Lobisomem até agora não me falou uma palavra, é bom lembrar que estamos em ano eleitoral. Vai ver que o Lobisomem é algum mercenário pago por algum futuro candidato ao executivo da cidade. Claro! Seria uma grande jogada política. Pagar para algum charlatão se vestir de Lobisomem e assustar as pessoas. Aí, nas campanhas eleitorais a principal promessa seria capturar o “Lobi”. O candidato ganharia a maioria dos votos, seria eleito e o Lobisomem sumiria dessas paragens.
Como já estava tarde e o Lobisomem não estava para conversa, eu fui para casa. Deixei para trás o coitado. Será que ele se identificou com alguma dessas coisas que falei? Será? Bom, mas isso não importa. O importante é que agora eu vou ficar famoso, porque eu fui um dos poucos privilegiados que me encontrei com o Lobisomem. Pena que ele não me falou nada a seu respeito. Mas quem sabe na sexta-feira que vem ele esteja um pouco mais apto para o diálogo. Pensando bem, semana que vem acho que não, afinal não será mais lua cheia. Pelo jeito vamos ter que esperar mais um mês para reencontrar o amigo Lobisomem.