domingo, 22 de março de 2015

Márcia

        Jackson e Laura formavam um jovem casal que recém estava começando a vida a dois. Ele engenheiro, 30 anos; ela 24, formada em Direito, mas que se dedicava mesmo a tocar seu próprio negócio, uma loja de roupas e acessórios femininos. Tinham vários planos para o futuro, entre os quais, filhos.
         Sábado à noite, depois do jantar, enquanto Jackson lavava a louça e Laura limpava a cozinha, o assunto veio à tona.
- Não vejo a hora dessa casa ser animada com gritos e brincadeiras de criança! – exclamou Laura.
- Eu também! Já temos uma condição financeira boa para aumentarmos nossa família, meu amor. Além do mais, eu também adoro crianças!
- Se puxarem pelo pai, com esse cabelo todo desgrenhado que tu tens, serão lindas!
- Lindas mesmo se tiverem esses teus olhos verdes.
- Se for um menino, queria muito que tivesse o teu nome também!
- Dois Jacksons seria demais, já chega um! Prefiro aqueles nomes mais antigos e de respeito, como Antônio, Pedro, Manoel, Afonso, Martin, Augusto, Otávio, César...
- Realmente, boas sugestões meu amor, concordo contigo!
- Já se for menina... acho que Márcia.
Laura então franziu o cenho, mirou um olhar fulminante para o marido, como se ele tivesse cometido um erro imperdoável e disparou, num misto de revolta e indignação:
- Por que Márcia, hein?!
- Porque eu acho um nome bonito!
- Quer dizer então que uma Márcia qualquer aí já foi importante na tua vida? Inclusive mais do que eu, pelo visto...
- Que ideia é essa Laura? De onde você tirou isso? Ficou maluca?
- Quem é essa vagabunda, Jackson? Vai me contar ou não?
- Não existe nenhuma Márcia, aliás, não conheço nenhuma sequer.
- Não conhece? Huum...
- Foi apenas uma sugestão de nome para nossa filhinha, caso a tenhamos!
- Sei! Homem não fala um nome feminino sem motivos! Quem é essa Márcia, Jackson? Fala logo antes que eu me irrite mais do que já estou!
- Você não pode estar em seu juízo perfeito, Laura!
- Quem foi a Márcia que marcou sua vida?
- Nenhuma! Nunca conheci ninguém com esse, já te disse!
- Você deve estar saindo com a Márcia, me traindo com ela, seu ordinário!
- Mas que Márcia, meu Deus?
- É isso que eu to tentando saber!
- Vou repetir pela décima vez: NÃO CONHEÇO NENHUMA MÁRCIA, P***
       - Não levanta a voz pra mim seu cafajeste! E enquanto não me esclarecer essa história, tu vais dormir no sofá da sala!

domingo, 15 de março de 2015

Minha crise de identidade

Já dizia Raul Seixas: “é chato chegar a um objetivo num instante, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mais chato do que chegar a um objetivo num instante é não aceitar que existam outros pontos de vista, e o pior, desrespeitá-los. É deixar de ser uma metamorfose ambulante, e por fanatismo exacerbado, acreditar que seu pensamento é o único certo e todos os outros são errados. É não saber que uma pessoa pode defender duas visões distintas, relacionado-as entre si e criando uma terceira via de pensamento.
Justamente esse é o panorama que se instalou no Brasil desde as eleições de outubro do ano passado, culminando com os protestos que acontecem nesse domingo, 15 de março, em todo o Brasil. A polarização PT e PSDB tornou-se extremamente ferrenha e quem não simpatiza com os princípios de nenhum dos dois, como eu, parece estar à margem da sociedade. Petistas chamando seus adversários de coxinhas, esses por sua vez taxando os outros de petralhas. A que ponto chegamos!
Para começo de conversa, o impeachment, tão defendido por pessoas que sequer sabem o que ele significa, é golpe de estado, a não ser que se comprove que a presidente teve ligações diretas com o esquema de corrupção na Petrobrás, o que até o presente momento não aconteceu. Até mesmo ícones oposicionistas já se manifestaram contra, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos maiores sociólogos deste país, entre outras lideranças. Se derrubar um presidente da República resolvesse os problemas nacionais, o Brasil seria então uma nação de primeiro mundo há muito tempo.
Evidente que a nossa democracia ainda é fraca, mas derrubar um presidente democraticamente eleito a tornaria ainda mais fraca. Para fortalecê-la é preciso respeitar sempre o resultado das urnas, mesmo que ele não nos agrade. Nesses quase 200 anos de independência, a democracia brasileira funcionou plenamente por quatro décadas apenas. É muito pouco tempo, se comparado aos Estados Unidos, que é a maior democracia do mundo. Lá ela funciona plenamente há mais de 200 anos e um dia chegaremos até esse patamar, mas para isso é imperioso que o desejo da maioria seja sempre respeitado. Infelizmente isso é algo que o brasileiro ainda não aprendeu.
Isso não quer dizer que eu esteja contente com o governo federal. O aumento dos impostos, percebidos principalmente nos combustíveis e na conta de energia elétrica, me leva uns bons trocados todos os meses. E o governo não retribui essa arrecadação com serviços de qualidade para a população. Aliás, isso ninguém nunca fez. Era sabido também que quem vencesse as eleições de outubro passado, inclusive a oposição, elevaria a carga tributária do país, afinal, é preciso pagar aquelas dívidas contraídas pelos governos militares dos anos 60 e 70, que deixaram a conta para nós e que alguns ainda sonham que possa ser a solução para o país.
Também é importante destacar que o partido que atualmente comanda o Palácio do Planalto não é de esquerda. Faz muito tempo que o PT se alinhou à direita, principalmente no que tange à política econômica, simpatizante do neoliberalismo. Mas é preciso reconhecer que muitas famílias saíram da pobreza, através de programas sociais, semelhantes aos que existem na Europa, por exemplo. Acho interessante um partido que consegue transitar entre a esquerda e a direita, passando obviamente pelo centro.
Não é fácil ser classe média no Brasil. Enquanto os empresários e banqueiros dispõem de benesses financeiras e as classes menos favorecidas de programas sociais, a classe média sofre para pagar seus tributos e com salários defasados. Com qualquer partido no poder não ia seria fácil ser classe média mesmo!
Em 1964 João Goulart foi deposto porque propunha medidas consideradas de esquerda, mas que visavam à melhoria da qualidade de vida da população brasileira. Já em 2015, as pessoas se manifestam contra um governo com características de direita para tentar conseguir medidas que sejam mais populares, semelhantes àquelas de Goulart. Quanta ironia, ou seria falta de ideologia? Aliás, o que é ideologia mesmo?
Acho que todo mundo que está descontente com o governo deferia votar no PSOL, afinal, as bandeiras dos protestos atuais são as mesmas defendida pelo partido, só que ninguém percebe, ou melhor, não quer perceber. O similar do PSOL chegou ao poder na Grécia, propôs uma renegociação da dívida do país, redução da carga tributária e aumento do salário dos trabalhadores. Mas de qualquer forma o PSOL não conseguiria mudar o Brasil mesmo, pois para governar o país é preciso ter maioria no Congresso, algo que o partido jamais conseguiria, tampouco eleger o presidente da República.
Eita crise de identidade! Pior do que a minha, somente a da política brasileira e dos formadores de opinião das redes sociais.