segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A ponte do rio que cai

As chuvas dos últimos dias trouxeram uma série de transtornos para a população da fronteira-oeste. Rios transbordando, bairros submersos, casas alagadas e pontes rodoviárias interrompidas foram algumas das manchetes que tomaram conta dos noticiários. Tais problemas foram causados, obviamente, por culpa de São Pedro e suas intempéries climáticas, não por falta de planejamento em infraestrutura.
Na região de São Luiz Gonzaga, o caso mais emblemático da chuvarada, até o momento, diz respeito à interdição da ponte sobre o Rio Piraju, na RS-168, em direção a Roque Gonzáles. Com a força da água a cabeceira da estrutura cedeu, abrindo um buraco que compromete a segurança dos motoristas que por ali trafegam. Para evitar acidentes e possíveis tragédias, o DAER interditou a ponte com fitas e galhos e posteriormente com cascalho. Mas nenhuma dessas medidas se mostrou eficiente, pois em ambos os casos os motoristas retiraram os obstáculos e seguiram viagem, mesmo com a iminente possibilidade de desabamento.
Mais uma vez, o famoso jeitinho brasileiro prevalece. Quanto vale uma vida? Rotas alternativas existem, por mais que as autoridades não tenham informado. Aumenta a distância a percorrer? Sim, mas pelo menos são trajetos seguros, que até o presente momento não estão condenados. Mas brasileiro gosta de adrenalina. Desrespeitar uma norma, por menor que ela seja, não faz mal, não é? Corrupção começa em casa e nessas pequenas atitudes diárias, aliás, isso está tão banal que o Brasil precisa de lei para dizer que corrupção é crime. Enquanto isso, o Estado mostra-se incapaz de impor suas determinações e o tráfego segue “normal” na ponte do Rio Piraju!
Não entrando no mérito de ser certo ou errado desrespeitar a interdição, o caso expõe a omissão das autoridades em relação às obras de arte rodoviárias, como a engenharia se refere às pontes, viadutos e afins. Somente nessa última enchente, várias delas tiveram suas estruturas ameaçadas, como a ponte sobre o Rio Ijuí, em Roque Gonzáles, na mesma RS-168; a ponte sobre o Rio Piratini, também na RS-168, na divisa entre São Luiz Gonzaga e Bossoroca, que esteve parcialmente interditada; a ponte Internacional da Concórdia, que divide Quaraí de Artigas, no Uruguai; a ponte de acesso a Cachoeira do Sul, na BR-153.
Recentemente, a ponte sobre a várzea do Toropi, na BR-287, nas proximidades de Santa Maria também desabou. Em 2013, a ponte sobre o Rio Uruguai na BR-386, em Iraí, foi interditada porque balançava quando os veículos cruzavam. A ponte na RS-344, entre Santo Ângelo e Entre-Ijuís, também é um caso emblemático. Em 2012 passou por manutenção para suportar o fluxo de veículos, mas até hoje continua balançando. Não é a toa que nos tempos de faculdade em Santo Ângelo ela era “carinhosamente” conhecida pelos estudantes como a “ponte do rio que cai”, pois realmente dava medo cruzar por ali de ônibus todos os dias.
Dessa maneira, o caso das chuvas dos últimos dias expõe a fragilidade das estruturas rodoviárias existentes não só no Rio Grande do Sul, mas em todo o país. E o quanto estamos vulneráveis, pois a qualquer momento poderemos sofrer as conseqüências dessas omissões. É um emaranhado de falhas, desde a falta de avaliação por engenheiros dos órgãos públicos até o excesso de peso dos caminhões, que acabam comprometendo as estruturas. Tomara que não esperem uma tragédia acontecer para que providências sejam tomadas.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O amor só dura em liberdade!

Eu não quero ver suas conversas no whatsapp e muito menos saber com quem ela fala. Não me importo com as fotos que ela curte ou deixa de curtir no face, tampouco com as mensagens que ela possa receber pelo chat. Não quero fazer um perfil duplo! Eu quero que ela tenha momentos de diversão só com as suas amigas, para que possam falar de assuntos femininos. Não censuro sua roupa, a menos que seja vulgar, é claro! Não faço escândalos se a vejo conversando com outro homem.
Valorizo suas qualidades. Beleza, simpatia e inteligência são extremamente atraentes! Companheirismo então, nem se fala! Se ela está com você, deve ser porque gosta e lhe ame. Se você for carinhoso, atencioso, souber ouvir e respeitá-la, ela não vai sentir a mínima necessidade de procurar outra pessoa. Ela não é sua propriedade, afinal, ninguém é de ninguém. Ela está ali para lhe mostrar que a vida é mais legal quando compartilhada com alguém interessante!
Como já dizia o sábio Raul, “o amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade”. Portanto, não alimente vaidades, que sempre acabam corrompendo tudo o que é bom! Não utilize-se do ciúme para compensar sua incapacidade de ser um bom companheiro! Deixe-a livre que ela sempre será sua, pelo simples fato de gostar de você!

domingo, 11 de outubro de 2015

Por que Direito?

Fazia tempo que desejava utilizar novamente este espaço para escrever algumas palavras, mas os compromissos do dia a dia não permitiam. Desde 28 de julho, data da última postagem, muitas mudanças ocorreram em minha vida, sendo a principal delas o ingresso no curso de Direito. Esse era um desejo antigo, mas que só agora foi possível realizá-lo.
Logo após concluir a minha licenciatura em História, em 2009, comecei a analisar a possibilidade de fazer outro curso superior. Angustiava-me a ideia de ter conhecimento apenas em uma área, ao mesmo tempo em que achava interessante poder atuar em outra que não fosse relacionada à educação. Letras, por ter muita facilidade em escrever; Jornalismo, por gostar de falar; Psicologia, por tentar sempre entender os outros e Direito, por gostar de decifrar leis e reunir todas as características dos outros três, eram as minhas opções.
Primeiramente descartei Letras, não queria cursar outra licenciatura; depois Jornalismo, pois não via um campo profissional muito amplo e tampouco eu chegaria até a Zero Hora ou a Globo. A decisão entre Psicologia e Direito foi mais difícil, as duas são áreas extremamente promissoras e com vastas opções de atuação, porém pesou a favor do Direito meu bom desempenho em legislação nos concursos públicos. Nesses certames eu percebi que tinha certa facilidade em assimilar leis e que talvez pudesse investir nessa área.
As perspectivas tornaram-se alvissareiras em 2013, quando fui nomeado no polêmico concurso do magistério do ano anterior e passei a dispor da segurança financeira de ser funcionário público. Mas com 40 horas de trabalho semanais não me sentia animado a sair da escola às 17h 30min e pegar o ônibus às 18h para ir até Santo Ângelo, algo tão comum quando eu cursei História. Na época da minha primeira graduação eu trabalhava apenas seis horas diárias, não levava serviço para a casa e a disposição de quem estava saindo da adolescência era muito maior.
Eu queria muito Direito, mas não tinha mais pique para viajar todo dia. A solução foi esperar o curso chegar a São Luiz Gonzaga, algo que era comentado desde 2011 e se concretizou apenas em meados de 2015. Não pensei duas vezes e me aventurei nesse novo desafio, quebrando paradigmas, afinal, são pouquíssimos os que fazem duas graduações.
Mas por que Direito? Vai cursar mesmo? Não gosta mais de dar aulas? Vai abandonar a escola? Vai conseguir conciliar tua profissão com a faculdade? Vai ter tempo de fazer o que gosta ou vai passar os dias só estudando? Essas foram só algumas das perguntas dirigidas a minha pessoa nos últimos meses, na maioria das vezes, em forma de espanto.
Mas também recebi mensagens de apoio de várias pessoas. Tu levas jeito! Já pensou o quanto teus conhecimentos de História podem ajudar na área jurídica? Tu falas e escreves bem, vai ter muito sucesso! Hoje te chamo de professor, amanhã de doutor! Que orgulho, professor! Vamos trabalhar juntos! Como é o curso de Direito, professor? Conta-me como está a faculdade, professor! Mas sem dúvidas, o mais emocionante foi a indagação angustiante de um grupo de alunos do 8º ano: “O senhor vai nos abandonar, professor?”. Respondi comovido, na certeza de que meu trabalho está sendo bem-feito: “Não, meus queridos!”.
Apesar de estar cursando Direito, eu gosto muito da minha profissão e enquanto eu for professor, tentarei desempenhar meu ofício sempre da melhor maneira possível. Acima de tudo, me divirto muito lecionando e procurando quebrar aquele clichê de que aulas de História são chatas e cheias de decorebas. Entretanto, somente os conhecimentos de História já não me serviam mais, enquanto ser humano eu precisava buscar novos saberes para minha realização pessoal. Quando terminei o Ensino Médio, em 2005, eu não sabia o que queria da vida e então fui fazer o que realmente gostava. Em nenhum momento arrependo-me dessa escolha, pois o curso de História oferece uma excelente base para o Direito.
Além de História e Direito se completarem, fazer uma segunda graduação tem muitas outras vantagens. Aquela pressão habitual do universo acadêmico não existe, pois você já tem um diploma superior e um emprego, e se porventura fracassar nessa segunda escolha, sua vida profissional já estará garantida. Concursos públicos também não assustam tanto, você já foi aprovado em um e sabe como eles funcionam. Sabe também que existirão disciplinas ao longo do curso em que não entenderá quase nada e seu objetivo consistirá apenas em ser aprovado. Sem falar naqueles professores “livros fechados”, cheios de conhecimento, mas não sabem transmiti-lo. E o tão temido Trabalho de Conclusão de Curso não assusta nada, tampouco a Metodologia Científica e as normas da ABNT.
Portanto, vale muito a pena investir em uma segunda graduação, principalmente aos 27 anos de idade, quando já se está mais maduro e experiente. Dominar duas áreas e poder atuar em ambas não tem preço!

terça-feira, 28 de julho de 2015

Waterloo: da derrota de Napoleão ao sucesso do ABBA

O general Napoleão Bonaparte foi um dos maiores estrategistas da História. Visto como o homem capaz de apaziguar tanto a burguesia quanto os camponeses, assumiu o poder na França em 1799, dez anos após a Revolução Francesa abolir o poder monárquico. Porém seu governo foi extremamente autoritário e sua política externa expansionista desagradou os vizinhos da França.
Semeando informações de que a República estava em perigo, Napoleão corou-se imperador em 1804, para livrar a França das ameaças estrangeiras que desejavam restaurar a monarquia no país. Tal possibilidade era verossímil, pois as demais realezas europeias temiam que o exemplo francês se repetisse em suas nações.
Enquanto Napoleão conquistava boa parte da Europa, a Inglaterra liderava um levante para retirá-lo do poder. Derrotava as forças do general no mar, afinal, possuía a marinha mais poderosa do mundo, mas sofria grandes baixas por terra, onde o exército francês era imbatível. Impossibilitado de dominar os ingleses, Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, proibindo qualquer país europeu de comercializar com a Inglaterra, na tentativa de desestabilizá-la e dessa forma, dominar por completo o continente. Quem desrespeitasse tal norma seria invadido pelos franceses, como ocorreu em Portugal e na Rússia.
Aliás, foi na Rússia que Napoleão começou a perder o seu poder. Invadiu o país durante o inverno, quando as temperaturas ultrapassavam facilmente os 30º C negativos, encontrando plantações destruídas propositadamente, para que os invasores não dispusessem de suprimentos para se manter. O fracasso em terras russas enfraqueceu o exército napoleônico e mostrou aos seus inimigos que ele poderia ser vencido. Dessa forma, em 1814, Napoleão, pressionando por forças estrangeiras, abdicou do trono e aceitou o exílio na ilha de Elba, localizada no Mediterrâneo e hoje pertencente à Itália.
A monarquia então foi restabelecida na França e muitas conquistadas oriundas da Revolução Francesa foram abolidas, para descontentamento geral da população. Aproveitando esse clima de instabilidade, Napoleão retornou após dez meses, aclamado pelo povo e assumiu o poder novamente, por um período que duraria apenas cem dias. Contudo, a Inglaterra mantinha o seu desejo de destituir definitivamente o governante francês e tal fato se concretizou em 18 de junho de 1815, na batalha de Waterloo, na Bélgica. Derrotado mais uma vez, Bonaparte foi exilado na ilha de Santa Helena, uma possessão inglesa localizada no Atlântico Sul e a monarquia francesa fora restituída novamente.
Porém, a famosa batalha não ficou registrada apenas nos livros de História. Em 1974, o grupo pop sueco ABBA lançou um disco chamado Waterloo, que continha uma canção homônima. Essa música foi responsável por alavancar a carreira internacional da banda, fazendo muito sucesso nos Estados Unidos e é claro, na Inglaterra, antes de se espalhar pelo resto do mundo.
Batalha de Waterloo

domingo, 7 de junho de 2015

Quase que o despertador do meu celular estraga tudo!

Começava o ano letivo de 2015, lá no final de fevereiro. Eu precisava de uma melodia que me despertasse todas as manhãs, pontualmente às 6h 30 min. Buscava uma música boa, que me fizesse acordar animado para mais um dia de labuta. Então não pensei duas vezes. Programei o despertador do celular justamente com “Highway to hell”, do ACDC. Mais do que perfeito!
Acertei em cheio na minha escolha, pensava eu, todo orgulho, nos primeiros dias. Ser chamado para um novo dia com aquele solo de guitarra era inspirador, não tinha como não acordar feliz. Pulava da cama cantando, sem tempo de sentir sono ou preguiça!
Porém as semanas se sucederam e em vez de me acordar, “Highway to hell” passou, terrivelmente, a atrapalhar meu sono sagrado de todas as noites. Sua bela melodia tornou-se sinônimo de tortura e angústia, pois quando ela tocava, sabia que estava na hora de levantar. Não havia mais prazer nenhum ao ouvi-la! Era preciso fazer algo, eu não podia deixar que tão estimulante canção caísse na minha desgraça, ainda mais por um motivo fútil.
Eu gostava de “Highway to hell”, mas naquele momento não sabia mais se gostava mesmo. Como ela pudera ir do sucesso à decadência em tão pouco tempo? Será que meus gostos musicais tinham mudado tão repentinamente? Uma profunda crise de identidade tomou conta do meu ser. O que fazer agora?!
O caso ficou extremamente grave em uma certa manhã, quando o celular despertou às 6h 30 min. Ao escutar aquele perverso som, tive vontade de jogar o aparelho na parede, estraçalhá-lo para que ficasse em vários pedaços. Fui contido de minha ira ao lembrar que ainda faltavam oito prestações para terminar de pagá-lo, portanto seria uma imprudência fazer isso.
Alguns dias depois, conversando despretensiosamente com uma amiga, eis que ela comenta que nunca devemos colocar uma música da qual gostamos para nos despertar, porque infalivelmente passaremos a detestá-la. Será que estaria aí enigma? Fiz o teste, troquei a melodia para uma que me deixava indiferente e nunca mais tive dissabores ao acordar. Definitivamente, aquela conversa mudou a minha vida!
A mesma música sem graça anuncia um novo dia para mim desde metade de março. E continuo escutando quase que diariamente “Highway to hell”. E se ainda gosto dela é porque há alguns meses eu tomei uma atitude radical, mesmo que inconscientemente, para manter essa obra-prima do rock n’ roll na lista das minhas favoritas. Ainda bem que eu agi a tempo!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Mistérios da meia-noite

Os sete anos do caso do lobisomem de São Luiz Gonzaga.

Escrita em 06/04/2008, publicada pela primeira vez hoje.

Já se aproximava da meia-noite de uma sexta-feira. A lua cheia brilhava no céu com poucas nuvens. A cidade de São Luiz Gonzaga estava mergulhada em um silêncio aconchegante. As pessoas dormiam, pois o dia seguinte ainda seria de muito trabalho. De longe se escutava a música de algum bailão que tinha na cidade. Por perto um cão uivava para a lua. Eu caminhava em direção a minha casa, voltando da faculdade em Santo Ângelo. Eram três quadras que eu fazia todas as noites, há mais de dois anos. Conhecia o caminho perfeitamente. Aquela sexta-feira era um dia especial, como todas as outras, pois marcava o fim de uma semana cansativa de estudos, provas e viagens.
Após descer do ônibus e percorrer uma quadra, para minha surpresa, me deparei com um vulto, na esquina escura. Cheguei a pensar que fosse um assaltante, mas ao me aproximar daquela “coisa”, para meu alívio, vi que se tratava de um bicho de quatro patas e cabeça achatada. Afinal, perder meu dinheiro que é bem contado e às vezes ainda falta no final do mês, para um larápio não estava nos meus planos. O sino da igreja começava a dar as doze badaladas. Era meia-noite em ponto.
Passado o susto inicial, fiquei tentando decifrar o que era aquele ser esdrúxulo. Seria um terneiro? Um cachorro? Não, não era nada disso. Foi aí que percebi que eu estava diante do são-luizense mais famoso dos últimos tempos: o Seu Lobisomem. É, ele mesmo, com suas lentes de contato exóticas, de cor avermelhada. Bem que ele podia ter um gosto melhor e escolher umas verdes ou azuis. Se me falassem eu não iria acreditar, mas como eu vi com meus próprios olhos, posso contar para todo mundo. Tentei pedir um autógrafo, mas pelo jeito o Lobisomem não sabia escrever. Coitado! Sua alfabetização deve ter sido em escola pública, deve ter sofrido com a enturmação, que certamente já deve ter ocorrido outrora. Além disso, o salário de sua professora não deve ter sido dos melhores. Mas imagina! Eu ficaria famoso, pois ostentaria o autógrafo do cara. Com certeza iria aparecer na imprensa. Eu e a assinatura dele.
Eu queria ter um dedo de prosa com ele. Mas ele estava imóvel. Não falava nada, ou melhor, não uivava. Cheguei a pensar que eu fosse um cara muito feio. Será que ele estava assustado comigo? Ele devia ter algum problema em suas cordas vocais, ou algum problema sério de saúde. Emocionado em me ver ele não estava, com toda certeza. Afinal, além de mudo, os pelos em excesso no corpo demonstravam algum problema genético. Como a saúde pública no Brasil está e sempre esteve um caos, o pobre do Lobisomem não teve acesso a um tratamento. Cansou de esperar na fila do SUS e desistiu de realizar um tratamento médico.
Como o Lobisomem é corajoso. Sair pelas ruas de São Luiz Gonzaga, tapadas de buracos, ainda mais à noite. O cara é bagual mesmo. Não deve ter medo de cair num buraco e se machucar. Deve ser por isso que ele anda a pé. Já deve ter quebrado o seu carro em alguma panela da cidade. Dizem por aí que o Lobisomem era motorista. Dirigia uma variante 75, mas as ruas de São Luiz Gonzaga terminaram com seu modesto carrinho. Mas como que ele tirou carteira de motorista se não sabia nem escrever? Certamente ele deve estar envolvido nas fraudes do Detran. Dizem as más línguas que ele tinha ligação com os caras. Deve ter comprado sua habilitação. Mas se isso é verdade, daqui uns dias o Lobisomem vai ser intimado para depor na Assembléia Legislativa, na CPI do Detran. E ainda de lambuja vai saborear uma deliciosa pizza na capital.
Mas já que estamos falando em política, e o seu Lobisomem até agora não me falou uma palavra, é bom lembrar que estamos em ano eleitoral. Vai ver que o Lobisomem é algum mercenário pago por algum futuro candidato ao executivo da cidade. Claro! Seria uma grande jogada política. Pagar para algum charlatão se vestir de Lobisomem e assustar as pessoas. Aí, nas campanhas eleitorais a principal promessa seria capturar o “Lobi”. O candidato ganharia a maioria dos votos, seria eleito e o Lobisomem sumiria dessas paragens.
Como já estava tarde e o Lobisomem não estava para conversa, eu fui para casa. Deixei para trás o coitado. Será que ele se identificou com alguma dessas coisas que falei? Será? Bom, mas isso não importa. O importante é que agora eu vou ficar famoso, porque eu fui um dos poucos privilegiados que me encontrei com o Lobisomem. Pena que ele não me falou nada a seu respeito. Mas quem sabe na sexta-feira que vem ele esteja um pouco mais apto para o diálogo. Pensando bem, semana que vem acho que não, afinal não será mais lua cheia. Pelo jeito vamos ter que esperar mais um mês para reencontrar o amigo Lobisomem.

domingo, 22 de março de 2015

Márcia

        Jackson e Laura formavam um jovem casal que recém estava começando a vida a dois. Ele engenheiro, 30 anos; ela 24, formada em Direito, mas que se dedicava mesmo a tocar seu próprio negócio, uma loja de roupas e acessórios femininos. Tinham vários planos para o futuro, entre os quais, filhos.
         Sábado à noite, depois do jantar, enquanto Jackson lavava a louça e Laura limpava a cozinha, o assunto veio à tona.
- Não vejo a hora dessa casa ser animada com gritos e brincadeiras de criança! – exclamou Laura.
- Eu também! Já temos uma condição financeira boa para aumentarmos nossa família, meu amor. Além do mais, eu também adoro crianças!
- Se puxarem pelo pai, com esse cabelo todo desgrenhado que tu tens, serão lindas!
- Lindas mesmo se tiverem esses teus olhos verdes.
- Se for um menino, queria muito que tivesse o teu nome também!
- Dois Jacksons seria demais, já chega um! Prefiro aqueles nomes mais antigos e de respeito, como Antônio, Pedro, Manoel, Afonso, Martin, Augusto, Otávio, César...
- Realmente, boas sugestões meu amor, concordo contigo!
- Já se for menina... acho que Márcia.
Laura então franziu o cenho, mirou um olhar fulminante para o marido, como se ele tivesse cometido um erro imperdoável e disparou, num misto de revolta e indignação:
- Por que Márcia, hein?!
- Porque eu acho um nome bonito!
- Quer dizer então que uma Márcia qualquer aí já foi importante na tua vida? Inclusive mais do que eu, pelo visto...
- Que ideia é essa Laura? De onde você tirou isso? Ficou maluca?
- Quem é essa vagabunda, Jackson? Vai me contar ou não?
- Não existe nenhuma Márcia, aliás, não conheço nenhuma sequer.
- Não conhece? Huum...
- Foi apenas uma sugestão de nome para nossa filhinha, caso a tenhamos!
- Sei! Homem não fala um nome feminino sem motivos! Quem é essa Márcia, Jackson? Fala logo antes que eu me irrite mais do que já estou!
- Você não pode estar em seu juízo perfeito, Laura!
- Quem foi a Márcia que marcou sua vida?
- Nenhuma! Nunca conheci ninguém com esse, já te disse!
- Você deve estar saindo com a Márcia, me traindo com ela, seu ordinário!
- Mas que Márcia, meu Deus?
- É isso que eu to tentando saber!
- Vou repetir pela décima vez: NÃO CONHEÇO NENHUMA MÁRCIA, P***
       - Não levanta a voz pra mim seu cafajeste! E enquanto não me esclarecer essa história, tu vais dormir no sofá da sala!

domingo, 15 de março de 2015

Minha crise de identidade

Já dizia Raul Seixas: “é chato chegar a um objetivo num instante, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mais chato do que chegar a um objetivo num instante é não aceitar que existam outros pontos de vista, e o pior, desrespeitá-los. É deixar de ser uma metamorfose ambulante, e por fanatismo exacerbado, acreditar que seu pensamento é o único certo e todos os outros são errados. É não saber que uma pessoa pode defender duas visões distintas, relacionado-as entre si e criando uma terceira via de pensamento.
Justamente esse é o panorama que se instalou no Brasil desde as eleições de outubro do ano passado, culminando com os protestos que acontecem nesse domingo, 15 de março, em todo o Brasil. A polarização PT e PSDB tornou-se extremamente ferrenha e quem não simpatiza com os princípios de nenhum dos dois, como eu, parece estar à margem da sociedade. Petistas chamando seus adversários de coxinhas, esses por sua vez taxando os outros de petralhas. A que ponto chegamos!
Para começo de conversa, o impeachment, tão defendido por pessoas que sequer sabem o que ele significa, é golpe de estado, a não ser que se comprove que a presidente teve ligações diretas com o esquema de corrupção na Petrobrás, o que até o presente momento não aconteceu. Até mesmo ícones oposicionistas já se manifestaram contra, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos maiores sociólogos deste país, entre outras lideranças. Se derrubar um presidente da República resolvesse os problemas nacionais, o Brasil seria então uma nação de primeiro mundo há muito tempo.
Evidente que a nossa democracia ainda é fraca, mas derrubar um presidente democraticamente eleito a tornaria ainda mais fraca. Para fortalecê-la é preciso respeitar sempre o resultado das urnas, mesmo que ele não nos agrade. Nesses quase 200 anos de independência, a democracia brasileira funcionou plenamente por quatro décadas apenas. É muito pouco tempo, se comparado aos Estados Unidos, que é a maior democracia do mundo. Lá ela funciona plenamente há mais de 200 anos e um dia chegaremos até esse patamar, mas para isso é imperioso que o desejo da maioria seja sempre respeitado. Infelizmente isso é algo que o brasileiro ainda não aprendeu.
Isso não quer dizer que eu esteja contente com o governo federal. O aumento dos impostos, percebidos principalmente nos combustíveis e na conta de energia elétrica, me leva uns bons trocados todos os meses. E o governo não retribui essa arrecadação com serviços de qualidade para a população. Aliás, isso ninguém nunca fez. Era sabido também que quem vencesse as eleições de outubro passado, inclusive a oposição, elevaria a carga tributária do país, afinal, é preciso pagar aquelas dívidas contraídas pelos governos militares dos anos 60 e 70, que deixaram a conta para nós e que alguns ainda sonham que possa ser a solução para o país.
Também é importante destacar que o partido que atualmente comanda o Palácio do Planalto não é de esquerda. Faz muito tempo que o PT se alinhou à direita, principalmente no que tange à política econômica, simpatizante do neoliberalismo. Mas é preciso reconhecer que muitas famílias saíram da pobreza, através de programas sociais, semelhantes aos que existem na Europa, por exemplo. Acho interessante um partido que consegue transitar entre a esquerda e a direita, passando obviamente pelo centro.
Não é fácil ser classe média no Brasil. Enquanto os empresários e banqueiros dispõem de benesses financeiras e as classes menos favorecidas de programas sociais, a classe média sofre para pagar seus tributos e com salários defasados. Com qualquer partido no poder não ia seria fácil ser classe média mesmo!
Em 1964 João Goulart foi deposto porque propunha medidas consideradas de esquerda, mas que visavam à melhoria da qualidade de vida da população brasileira. Já em 2015, as pessoas se manifestam contra um governo com características de direita para tentar conseguir medidas que sejam mais populares, semelhantes àquelas de Goulart. Quanta ironia, ou seria falta de ideologia? Aliás, o que é ideologia mesmo?
Acho que todo mundo que está descontente com o governo deferia votar no PSOL, afinal, as bandeiras dos protestos atuais são as mesmas defendida pelo partido, só que ninguém percebe, ou melhor, não quer perceber. O similar do PSOL chegou ao poder na Grécia, propôs uma renegociação da dívida do país, redução da carga tributária e aumento do salário dos trabalhadores. Mas de qualquer forma o PSOL não conseguiria mudar o Brasil mesmo, pois para governar o país é preciso ter maioria no Congresso, algo que o partido jamais conseguiria, tampouco eleger o presidente da República.
Eita crise de identidade! Pior do que a minha, somente a da política brasileira e dos formadores de opinião das redes sociais.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Pelos poderes de CAMISA DE VÊNUS, JÚPITER MAÇÃ, TITÃS...


Era um sábado de lua cheia, bastante tedioso, quando liguei para um amigo e convidei-o para ir num baile que tinha na cidade, afinal, não havia nada para se fazer. Para causar uma boa impressão, coloquei uma ROUPA NOVA! Chegando lá, depois de passar pela revista minuciosa dos RAIMUNDOS (coincidências à parte, os dois seguranças do lugar se chamavam Raimundo), encontrei uma loira de olhos azuis, que tinha uma ROSA TATOOADA na altura do ombro, além de um SORRISO MAROTO.
Dançamos e quando perguntei seu nome, que já não lembro mais, notei que ela tinha um sotaque italiano, mas rapidamente ela me corrigiu, dizendo ser, na verdade, de SAN MARINO, aquele minúsculo enclave dentro da Itália! Que diferença isso faz, pensei comigo!
Depois de desfilarmos alguns minutos pelo salão, sentamos em uma mesa e para tentar agradar-lhe, perguntei:
- Que tal tomarmos uma TEQUILA BABY?
Ela aceitou e ficamos o resto da noite conversando e de vez em quando dançando alguma música.
Por sua vez, meu amigo se mostrava impaciente, pois desde o momento que chegamos umas VELHAS VIRGENS davam em cima dele, mas como estava de carona comigo, teve que aguentar firmemente a investida. Podia-se perceber a IRA que brotava de seu rosto!
A conversa com a loira dos olhos azuis se desenrolava muito agradável. Ela se tratava de uma empresária da moda praia, dona de uma famosa grife de BIQUÍNI CAVADÃO, que havia chegado há poucos dias de uma conferência em TIHUANA, no México!
- E você e seu amigo, o que fazem da vida? – perguntou ela.
- Somos ENGENHEIROS – respondi prontamente!
A noite se encaminhava para ser perfeita, quando de repente, do nada, aparece minha ex, a VERA LOCA, fazendo um escândalo danado e me proferindo elogios do mais baixo calão. Faz mais de um ano que ela não larga da minha ABBA. Pra completar, disse que ia me atacar com BIDÊ OU BALDE, e o pior, explodir eu e todos que estavam ali com umas bananas de TNT. Quanto ULTRAJE!
Para evitar o já inevitável, chamei meu amigo e fomos embora o mais rápido possível. Mas antes, ainda tivemos que dar algumas moedas para a MARIA DO RELENTO, uma moradora de rua que costumava cuidar os carros estacionados ali nas redondezas.
Saímos em disparada só que eu não sabia o caminho de volta. Aliás, NENHUM DE NÓS sabia. Perdemo-nos e fomos parar em uma estrada de chão, aonde havia muitos patos e pra completar o azar, acabei atropelando e matando um deles, literalmente o PATO FU... e os PARALAMAS do carro ficaram destruídos!
Depois de algumas horas perdidos, encontramos uma senhora chamada NAZARETH, que nos indicou o caminho certo até o centro da cidade. Chegaríamos rapidamente se não fosse um mero detalhe: tínhamos que ir devagar, porque estavam consertando a estrada e inúmeras placas com o alerta “MEN AT WORK” podiam ser vistas pelo caminho!
Já passava das oito da manhã quando cheguei em casa. Completamente estressado e abalado com o acontecimento da noite passada, tratei de marcar uma consulta com um médico amigo meu, o DR. SILVANA E CIA. Caso não me tratasse logo, poderia começar a preparar minha SEPULTURA.