domingo, 28 de dezembro de 2014

O machismo feminino


Uma pesquisa divulgada no início do mês de dezembro comprovou o que nem precisava de pesquisa para se saber: a sociedade é machista, ou melhor, os homens são. De acordo com o estudo, mais da metade dos entrevistados (de ambos os sexos!), concordam com padrões comportamentais machistas.
Não vou me deter aqui nos já batidos e inescrupulosos clichês de que se usar roupa curta ou decotada a mulher está se oferecendo, ou ainda, sair à noite para se divertir com as amigas sem a companhia do namorado é imoral. Esses são argumentos ultrapassados, que não deveriam mais ter espaço no mundo dito civilizado do século XXI. Mas como vivemos em uma sociedade patriarcal...
Os números da pesquisa não chegam a surpreender, o que surpreende mesmo é o fato de muitas mulheres concordarem, e além do mais, disseminarem tais pensamentos, contribuindo assim para que a opressão masculina continue. O pior machismo é o feminino!
Mesmo que de forma velada, a sociedade apresenta valores e rituais extremamente machistas, que muitas mulheres adoram. Considerados como acontecimentos marcantes, são ansiosamente esperados por elas e tidos como inesquecíveis.
Quinze anos e casamento são dois bons exemplos de machismo feminino. No primeiro exemplo, o pai ao desfilar pelo salão com a filha no momento da valsa, mostra a todos o resultado do seu trabalho. E o protocolo destes eventos afirma que é a passagem da fase de menina para mulher. Quer dizer que agora ela está pronta os que tiverem interesse?!
Já o casamento religioso consiste em uma troca. Um homem, no caso o pai, entra com a filha na igreja e a entrega para outro homem, o noivo, como se ela fosse um objeto. Ou em outras palavras, de propriedade paterna, ela passa a ser propriedade do marido. Essa troca fica bastante explícita no casamento civil, onde geralmente a mulher permanece com seu último sobrenome (o do pai) e agrega o do marido no final. Não é à toa que as mulheres que se consideram independentes não pensam em casamento, pois juntar as escovas de dente já é mais do que suficiente para elas.
Ainda tem o caso daquelas garotas que chamam suas inimigas de putas, só para depreciá-las. O mais irônico disso é que estão reproduzindo exatamente os discursos machistas que tanto refutam. Talvez seja só birra de adolescente! Será?!
Bom, acho melhor parar por aqui, pois como não sou machista, terei que agüentar possíveis manifestações contrárias. Meninas, por favor, mostrem que estou errado, só não me mandem à “puta que pariu”!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As morenas e as músicas gaúchas

Todos os anos, quando chega a Semana Farroupilha, uma dúvida fica mais aguçada em meus pensamentos: por que as músicas gaúchas só abordam em suas letras as morenas? Por que não loiras ou ruivas? Os anos passam e nunca encontrei uma resposta “científica” para isso, sendo assim, desenvolvi uma teoria, que até me provarem o contrário, considero ser a mais próxima da verdade.
Para início de conversa, é preciso destacar que a cultura gaúcha é extremamente machista. Ou alguma das caras leitoras gostaria de ser chamada de “china”, “chinoca” ou coisas do tipo? As chinas eram, obviamente, as prostitutas que acompanhavam as tropas militares e saciavam os desejos carnais dos soldados nos intervalos entre uma batalha e outra. Geralmente eram mestiças e de origem indígena, portanto, morenas.
Nessa época, a cor da pele indicava a camada social a qual se pertencia. Quanto mais branca, mais nobre. As mulheres brancas deveriam ser submissas aos seus maridos. Aliado a isso, a moral cristã pregava que a mulher nobre tinha como única função procriar e em hipótese alguma deveria sentir prazer durante o ato sexual, porque isso era pecaminoso, obra do demônio.
Dessa forma, seus maridos procuravam o prazer fora do casamento, e suas mulheres, temendo o inferno, consentiam tranquilamente com essa prática. Se todas as nobres eram brancas e não podiam desfrutar dos prazeres carnais, quem sobrava para satisfazer os desejos masculinos? As mestiças (morenas), obviamente, descendentes dos indígenas, que existiam aos montes no Rio Grande do Sul, afinal, eles foram os primeiros habitantes do nosso Estado.
Enquanto as mulheres brancas eram tidas como uma reprodução da Virgem Maria, sendo boas mães e puras, as mestiças serviam para o deleite dos rio-grandenses. E assim, de uma forma depreciativa, as morenas fazem parte da tradição musical gaúcha, pois durante boa parte da nossa história, os rio-grandenses desejaram uma para satisfazer seus instintos mais sacanas.

domingo, 14 de setembro de 2014

As fogueiras da Inquisição do século XXI

Apesar dos avanços tecnológicos e culturais da época, a Idade Média ficou popularmente conhecida como “Trevas”. A atuação da Igreja Católica contribuiu muito para que esse período histórico recebesse tal alcunha, pois ela, através de seu Tribunal da Inquisição, perseguia, prendia, torturava e matava todos aqueles considerados hereges e bruxos, sem que os mesmos tivessem uma única oportunidade de defesa. A forma mais popular para eliminar os inimigos do cristianismo era queimá-los vivos nas fogueiras, em praça pública.
O Tribunal da Inquisição foi instituído no século XIII, mais precisamente no ano de 1229, com a finalidade de exterminar os pagãos que representavam ameaça aos princípios católicos. Durante a Idade Média e boa parte da Idade Moderna, essa prática foi bastante comum, e ao mesmo tempo, temida pela população. Qualquer um poderia parar na Inquisição e de lá dificilmente sairia com vida, bastava apenas uma denúncia de bruxaria e o denunciante sequer precisava apresentar provas. Sendo assim, muitas pessoas entregavam seus desafetos pessoais, que não tinham cometido crime algum.
Os anos passaram e a Inquisição, com suas temidas fogueiras, foi arrefecendo. No século XVIII as perseguições aos pagãos cessaram, mas a lei da Inquisição continuou existindo, mesmo que teoricamente, até a metade do século XX. Enfim, uma das páginas mais nebulosas da História permaneceu ativa por 500 anos, matando milhares de pessoas inocentes.
Porém, em pleno ano de 2014, muitos ainda acreditam que a fogueira é a melhor alternativa para resolver os problemas do mundo. Os fatos da semana que finda comprovam isso.
Primeiro, o CTG de Santana do Livramento que ia receber um casamento coletivo, no qual havia um casal de lésbicas, foi incendiado durante a madrugada de quinta-feira, supostamente for fundamentalistas gaudérios que eram contra a realização do consórcio homoafetivo nas dependências da entidade, porque isso fere as tradições gaúchas e todo aquele blábláblá que já se tornou insuportável.
Não bastasse isso, na madrugada seguinte, a residência daquela guria que chamou o goleiro do Santos de macaco também foi incendiada, em Porto Alegre. Tudo bem, ela errou, mas ateando fogo em sua casa, ou o pior, queimando-a viva (creio que essa era a real intenção, mas felizmente ela já havia abandonado o local) o problema estará resolvido e a justiça será feita? Já não basta o massacre que ela sofreu da mídia e da sociedade?
A intolerância fará um mundo melhor?
A Idade Média acabou há pouco mais de 500 anos, mas definitivamente, ela ainda não saiu da mentalidade de muitas pessoas. As fogueiras da Inquisição ainda possuem muita força, mesmo no século XXI. Infelizmente!

domingo, 25 de maio de 2014

Brasil hexa ou Argentina tri?

No próximo dia 12 de junho terá início a 20ª Copa do Mundo, realizada novamente no Brasil depois de 64 anos. A partir dessa data os olhos do mundo, ou pelo menos dos amantes do futebol, estarão voltados para o “país do futebol”.
No Brasil, como já é de costume, ruas, casas, escolas e lojas serão decoradas de verde e amarelo. Nessa época a população é tomada por um sentimento inexplicável que considera patriotismo, mas torcer pela seleção não é nenhum ato de amor à Pátria. Se quando as copas foram realizadas longe daqui o ufanismo já foi enorme, imagina agora com o mundial no nosso quintal. Vai ser pior ainda! O bom é que nos dias de jogos do Brasil as pessoas vão sair do serviço mais cedo e descansar mais.
Se a seleção brasileira levar o caneco, o título será somente de 23 atletas e mais a comissão técnica, sem falar na astronômica premiação em dólares que também será só deles. Enquanto isso, milhões de brasileiros continuarão trabalhando, estudando, pagando suas contas e enfrentando diariamente os mesmos problemas. De que adianta torcer fervorosamente para a seleção brasileira ser campeã se nada vai mudar em nossas vidas? Tudo vai continuar como antes e ainda por cima eu não ganharei nenhuma porcentagem da premiação.
Isso não quer dizer que não vou acompanhar os jogos da seleção brasileira. Pelo contrário, gosto muito de futebol e na medida do possível tentarei assistir outras partidas interessantes também. E que vença o melhor, seja ele quem for, pois o resultado é o que menos importa, não fazendo diferença nenhuma se for o hexa do Brasil ou o tri da Argentina.

sábado, 29 de março de 2014

O álbum de figurinhas da Copa 1998

Há poucos dias vazou na internet o álbum de figurinhas da Copa 2014, a ser lançado, como sempre, pela editora Panini. De súbito me vieram as recordações de 1998, quando tive meu primeiro e único álbum da Copa do Mundo. Na época, tinha quase 10 anos e colecionar aquelas figurinhas autocolantes marcou minha infância, motivado em partes, pela paixão por geografia e história que já naquele tempo eu nutria.
A Copa de 1998 não foi uma das melhores. A derrota do Brasil para a França em 12 de julho (uma semana antes do meu aniversário) foi, digamos, decepcionante. Naquela tarde a seleção não jogou nada e até hoje, suspeita-se de alguma marmelada, afinal, quem não lembra da suposta convulsão do Ronaldo antes da final? E mesmo assim ele estava em campo na decisão, algo que ainda não consigo entender.
O referido mundial deixou muito a desejar, ainda mais se comparado ao de 1994, nos Estados Unidos, aonde uma seleção brasileira desacreditada, mas com muita raça e vontade, foi avançando até despachar a Itália nos pênaltis, na final. Em 1994 dava gosto ver o Brasil jogar, lembro de todos os jogos e também foi nesse mesmo ano que ganhei meus primeiros times de futebol de botão, justamente Brasil e Estados Unidos, que fizeram uma emocionante partida nas oitavas de final, debaixo de um sol escaldante. Porém eu não tive o álbum daquela Copa do Mundo, pois era muito pequeno e nem sabia que ele existia. Mas ele veio quatro anos depois!
Lá por maio de 1998 um colega apareceu na escola com o álbum da copa. Sendo assim, eu não poderia ficar para trás, implorei a meus pais para ter um e fui atendido. As figurinhas vinham em envelopes, contendo cinco em cada um deles, aqui em São Luiz Gonzaga eram compradas na Cinelândia, a livraria que existia ao lado do cinema. O primeiro jogador que tirei foi o mexicano Pavel Pardo e também tive muitas repetidas, mas sempre havia algum amigo para trocá-las. O grande barato era ter as figurinhas dos escudos das seleções, pois elas eram as únicas que vinham com um fundo brilhante.
Não cheguei a completá-lo e até hoje não conheço ninguém que tenha conseguido, apesar de que poderia escrever para a Panini até abril de 1999 pedindo as que faltavam. Mesmo assim, consegui alguns clássicos, não pelas suas habilidades futebolísticas, mas sim por suas belezas um tanto exóticas, como por exemplo, o colombiano Valderrama e os estadunidenses Lalas e Balboa.
Na época, só existia um craque que todos os meninos queriam em seus álbuns, e eu felizmente tinha, que era o Ronaldo. No final dos anos 90, diferentemente de hoje, o futebol mundial andava carente de estrelas, isso até a final, quando Zidane destruiu o Brasil. A Alemanha era um time velho e decadente, a França voltava a disputar um mundial depois de 12 anos, a Espanha não passava de mera coadjuvante, a Argentina ainda não havia achado um craque para substituir Maradona, flagrado no doping quatro anos antes e a Itália continuava sendo eliminada nos pênaltis.
Enfim, o álbum de figurinhas da Copa do Mundo da França 1998 é mais uma das boas e velhas recordações dos tempos de infância. Nem parece, mas já se passaram 16 anos. Direto do túnel do tempo!
Não achei fotos do Valderrama em 1998, mas naquele ano sua cabeleira estava maior ainda
Lalas parece com o Humberto Gessinger, não?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

As cores da Pepsi

Logotipo da Pepsi adotado a partir de 1945
Mais um fato curioso que talvez poucos conheçam:
O símbolo da Pepsi, representado pelo globo, teve sua origem na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, como uma forma de apoio e patriotismo. O refrigerante lançou na época uma nova tampa em edição especial, que trazia escrito o nome Pepsi-Cola em fonte curvilínea em cor vermelha, sobre um fundo vermelho, branco e azul (cores da bandeira dos Estados Unidos), numa representação ondulada.
Após o final da guerra, em 1945, o logotipo foi oficializado para os produtos da empresa.
Logos da Pepsi antes da Segunda Guerra Mundial

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A seleção de um país que não existia

Repúblicas que formaram a Iugoslávia entre 1918 e 1991
Ao longo do tempo, vários fatos políticos acabaram por gerar situações inusitadas no mundo esportivo. Uma delas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2006, quando a seleção da Sérvia e Montenegro representava uma nação que deixou de existir poucos dias antes do início do mundial.
Os sérvios-montenegrinos eram os herdeiros do que havia restado da antiga Iugoslávia. Esta foi formada após o final da Primeira Guerra Mundial, na região dos Bálcãs, sul da Europa, através da união de seis repúblicas diferentes: Sérvia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia e Montenegro. Foi preciso muita habilidade política para manter unidas em um mesmo território etnias e religiões distintas. Grande parte desse sucesso foi responsabilidade de Tito, ex-guerrilheiro que liderou a resistência contra os nazistas e assumiu o poder após a destituição da monarquia, ao final da Segunda Guerra Mundial.
Até a morte de Tito, em 1980, a Iugoslávia viveu pacificada, sob um regime socialista, mas não alinhada à União Soviética. A partir do falecimento de seu líder, previa a constituição uma rotatividade no executivo, sendo que a cada dois anos um representante de uma das seis etnias assumiria a chefia do governo.
Porém, essa nova estrutura fracassou, pois a escolha do presidente sempre acabava desagradando alguém. Somou-se a isso o fim do socialismo no leste europeu e a desintegração da União Soviética para que a Iugoslávia começasse a ruir. Em 1991, Eslovênia, Croácia, Macedônia e Bósnia e Herzegovina declararam sua independência, sendo que na Bósnia estourou uma guerra civil motivada por questões políticas e religiosas.
Já as duas repúblicas restantes deram continuidade ao país até 2003, quando ele passou a se chamar Sérvia e Montenegro, afinal, nada mais justificava a nomenclatura Iugoslávia, pois ela representava a união desfeita doze anos antes. Mas a nova organização durou apenas três anos. Em 3 de junho de 2006, Montenegro declarou sua independência e dois dias depois, foi a vez da Sérvia fazer o mesmo. Sendo assim, quando estreou na Copa de 2006, no dia 11 de junho, a seleção da Sérvia e Montenegro representava um país que não existia mais.
Seleção da Sérvia e Montenegro na Copa de 2006

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Azul da Itália, branco da Alemanha e laranja da Holanda

Dentro de cinco meses terá início mais uma Copa do Mundo de Futebol. Apesar de achar um grande desperdício de dinheiro realizar um evento desses no Brasil, na medida do possível tentarei acompanhar os jogos da competição. Afinal, meu gosto por História se deve em muito ao futebol, principalmente com relação ao mundial da França de 1998, quando tinha nove para dez anos e procurava saber de onde vinham as equipes que participavam daquele torneio.
Já naquela época, alguns fatos interessantes me chamavam atenção. Por que as seleções da Itália, Alemanha e Holanda jogavam de azul, branco e laranja, respectivamente, se essas cores não faziam parte de suas bandeiras? Durante muitos anos permaneci sem resposta para essa inquietante questão, mas analisando do ponto de vista histórico ela fica bem clara.
O azul da Itália é oriundo do período da unificação do país. Até a metade do século XIX a península itálica era uma colcha de retalhos, formada por diversos reinos. A partir de 1860, teve início o processo de unificação, liderado pela Casa Real de Savóia, cuja cor era justamente o azul. Até 1946, quando a República Italiana foi proclamada, a bandeira do país continha o brasão dessa família real.
Bandeira do Reino da Itália, utilizada entre 1848 e 1946
A história do uniforme alemão tem uma origem semelhante. O preto e o branco fazem referência às cores da Prússia, um dos mais importantes reinos que deram origem à unificação e a conseqüente formação ao império alemão, em 1871.
Bandeira da Prússia
O laranja da Holanda também faz referência a uma dinastia, a de Guilherme de Orange-Nassau, responsável pela independência do país e seu apogeu como força econômica no século XVII. Na época, a bandeira holandesa era formada pelas cores laranja, branco e azul. Reza a lenda que a laranja foi substituída pela vermelha, pois esta era mais visível no mar.
Primeira bandeira holandesa
Ainda existem outros casos, como a Austrália e o Japão. Os australianos adotam o verde e amarelo em homenagem a acácia, árvore símbolo do país, cujas flores são amarelas, enquanto os japoneses utilizam o azul apenas por superstição.