domingo, 21 de julho de 2013

Pra frente Brasil!

Minha primeira crônica, escrita em 30/12/2009

1970. O Brasil vivia uma situação política conturbada, auge da ditadura militar, período de intensa repressão aos opositores do regime político que havia se instalado no país seis anos antes. Com o intuito de esconder as perseguições e mortes, o governo brasileiro usava o artifício do futebol para a população não perceber o que realmente acontecia no país. A Copa de 1970, no México, se tornava uma ampla propaganda de marketing que os militares usavam ao seu favor, e que realmente dava certo, pois eles apostavam que se o país tivesse sucesso no futebol, também teria na política.
Enquanto a maioria da população era cativada pelo esporte, existiam pessoas que lutavam contra a ditadura. Dentre elas estava Jorge Sampaio, um estudante de medicina, líder do Diretório Acadêmico de sua universidade e simpatizante dos ideais socialistas, que havia organizado várias manifestações na capital, por isso estava sendo perseguido. Deveria ser preso e interrogado, mas sabendo o que realmente iria lhe acontecer abandonou a família e a faculdade e foi morar em modesta pensão em uma pacata cidade do interior.
Depois de algumas semanas, numa festa na mais badalada discoteca do lugar, ele conheceu uma charmosa moça de 17 anos de idade, chamada Maria Beatriz. Foi interesse mútuo, ambos dançaram juntos, conversaram, trocaram o primeiro beijo e marcaram o próximo encontro, para a tarde de domingo, na praça. Os dois passaram a se ver quase que diariamente e depois de mais alguns dias de encontros e desencontros, Maria Beatriz convidou Jorge para ir a sua casa.
No dia combinado ele foi e ela lhe apresentou para seus pais, Antônio e Teresa, que o trataram muito bem. Era justamente no dia da estreia do Brasil na Copa contra a Tchecoslováquia, quando o país inteiro parou para acompanhar pelo rádio aquele incrível time com Pelé, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Tostão, entre outros craques. As famílias com maior poder aquisitivo já possuíam televisão e podiam assistir à partida, como na casa de Maria Beatriz.
Apesar da boa recepção, Jorge sentiu um frio no estômago e suas pernas tremeram. E não era por estar visitando pela primeira vez a casa da amada, pois já tivera inúmeras namoradas quando morava na cidade grande, sendo que esse momento não tinha nada de inédito para ele. O seu problema tinha nome e sobrenome, chamava-se Antônio Costa, pai de Maria Beatriz. Aquele senhor de sorriso simpático e olhar sério era general do Exército, braço direito do governo no interior do Estado. Apesar desses inconvenientes, Jorge acreditava que poderia manter seu passado omisso, pois a história de trocar a capital pelo interior para curar a asma que o assolava desde a infância tinha sido bem aceita pelos sogros.
Porém dois dias depois, o General Costa recebeu um telegrama informando sobre supostos comunistas subversivos que estavam escondidos na região. No meio da lista encontrava-se o nome de Jorge Sampaio, seu genro. Ao chegar em casa, completamente enfurecido, proibiu sua filha de se encontrar com o jovem, pois não aceitaria de maneira alguma um criminoso em sua família.
Ao perceber que Maria Beatriz não vinha mais encontrá-lo, Jorge decidiu ir até a casa dela. Dona Teresa avisou o que tinha acontecido e disse para ele se afastar, pois seu marido queria vê-lo atrás das grades. Sabendo que sua integridade estava em risco, ele passou a não sair mais de seu quarto da pensão.
Com o desejo de capturar o jovem subversivo e mandá-lo de volta à capital para ser interrogado, General Costa encarregou o Sargento Alcebíades, homem de sua extrema confiança, para encontrá-lo e prendê-lo. O mesmo descobriu em qual pensão o rapaz morava, bem como o número do quarto, e conduziu uma patrulha até o local. Enquanto seus homens ficaram em frente ao prédio, Alcebíades subiu rapidamente as escadas, bateu no 19 e quando Jorge abriu a porta, deu voz de prisão a ele. Como era um moço robusto, ele resistiu e ambos entraram em luta corporal. Para tentar dominá-lo, o sargento desferiu vários tiros contra Jorge, que acabaram atingindo também uma mulher que se encontrava junto. Ambos ficaram ali, agonizando enquanto aguardavam por socorro.
A mulher que estava com Jorge era Maria Beatriz, que tinha fugido de sua casa, pois estava disposta a largar tudo para viver com seu amor, mesmo que isso fosse contra os princípios de seu pai. Era a noite de um gélido domingo de inverno que se iniciara naquela mesma data, 21 de junho. Pouco antes, durante a tarde, o Brasil havia vencido a Itália por 4 x 1 e conquistado o tricampeonato mundial de futebol.

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