quarta-feira, 26 de junho de 2013

Os vândalos

Mapa da migração dos vândalos até Roma, no século V.

As manifestações pacíficas que varrem o Brasil há mais de uma semana, registraram momentos de destruição ao patrimônio público promovidas por vândalos que se infiltram nos grupos e promovem diversas arruaças. Eles são os responsáveis pelas cenas de violência que a mídia adora enfatizar, como se tais fatos isolados fossem o norte destas manifestações.
No campo histórico, os vândalos foram um dos inúmeros povos bárbaros que atacaram o Império Romano. Originários do leste europeu, migraram em massa para a Europa Ocidental, deixando um rastro de destruição por onde passavam, assim como os demais povos bárbaros. Os romanos consideravam "bárbaros" todos aqueles que tinham costumes diferentes dos seus, não falavam o latim, usavam da violência extrema para suas conquistas (esse último aspecto não se diferenciava muito dos romanos, mas enfim...).
Segundo o Dicionário Aurélio, vândalo significa "membro de um povo germânico bárbaro que devastou o Sul da Europa e o Norte da África". O referido dicionário traz ainda "destruidor de monumentos" e "quem nada respeita".
Portanto, pode-se concluir que a língua portuguesa associa pessoas que costumam depredar, promover badernas e saques aos vândalos, povo que utilizava tais técnicas em suas conquistas. Algo um tanto injusto, pois francos, visigodos, ostrogodos, alanos, francos, entre tantos outros povos bárbaros, também empregavam da violência e seus nomes não são utilizados para designar baderneiros. 
Quanta injustiça com os vândalos, os da Idade Antiga, é óbvio!

Vândalos em ação no século XXI

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Mais uma vez 1986


Escrito em 22/03/2010
A Copa do Mundo de 2014 poderá ser igual à de 1986. Não estou prevendo que a Argentina será campeã e nem que o Brasil cairá nas quartas-de-final novamente para a França, velho algoz do futebol canarinho. As semelhanças com aquele mundial não dizem respeito aos resultados dentro de campo, mas sim com relação à organização do torneio fora dele.
Em 1986, a Copa do Mundo estava prevista para ser realizada na Colômbia, um país dominado pelo grupo terrorista FARC (Forças Armadas e Revolucionárias da Colômbia) e que enfrentava uma séria crise econômica. Devido a esses problemas, três anos antes do mundial o país sul-americano desistiu da organização da Copa, fazendo com que uma nova sede fosse escolhida urgentemente. Como aquela edição seria na América, obedecendo a um rodízio de continentes com a Europa, o México acabou ganhando o direito de organizar o mundial, pois já dispunha da infraestrutura da Copa de 1970, que também foi realizada no país. Quase que a edição de 1986 ficou comprometida.
O Brasil dos anos 2000 não difere muito da Colômbia dos anos 80, exceto pela inexistência de grupos terroristas. Os problemas são os mesmos, ou talvez piores com metrópoles crescendo desordenadamente; trânsito caótico, com rodovias precárias e antiquadas que não suportam a frota de veículos; grande parte da população passando necessidades, vivendo abaixo da linha da pobreza; aeroportos com “apagões aéreos”; pessoas morrendo nos corredores de hospitais; educação pública defasada; entre outros. Soma-se a isso a questão da segurança pública, com bandidos controlando áreas das grandes cidades, com arsenais mais potentes que os da própria polícia. 
É nesse cenário caótico que nossos governantes querem organizar uma Copa do Mundo de futebol, em 2014. Primeiramente é necessário sanar os problemas do país, como saúde, educação, segurança pública, emprego, transportes; para depois se pensar em um evento dessa magnitude. Imagine uma seleção não chegar a tempo de uma partida porque ficou presa no engarrafamento de São Paulo num dia chuvoso, ou então não poder comparecer ao Maracanã porque bandidos fecharam as avenidas do Rio. Essas são hipóteses plausíveis, que não ficariam bem para um país sede de Copa do Mundo.
Realizar uma Copa no Brasil acarretará um enorme desperdício de dinheiro público com reformas e construções de novos estádios, enquanto o país enfrenta sérios problemas sociais, econômicos e de infraestrutura. Esse montante poderia ser investido na redução desses problemas e quando tudo estivesse resolvido, aí sim se pensar na organização de um mundial. Mas a velha política do pão e circo, tão difundida pelos romanos, continua viva na mente dos homens que administram esse país, pois o pão há muito tempo já está servido e o circo, querem trazer daqui a quatro anos.
Portanto o Brasil em 2014 é sério candidato a repetir o que aconteceu com a Colômbia em 1986, não por culpa dos brasileiros, mas de nossos governantes que se lançam em aventuras homéricas, sem pensar nas conseqüências. E por culpa da FIFA também, que escolhe um país sem as mínimas condições para sediar um mundial. Como em 1986, a Copa de 2014 também será na América e uma alternativa de última hora para sediar o torneio será os Estados Unidos, que além de desenvolvido, oferece a mesma infraestrutura do mundial de 1994, que foi sucesso de público e audiência. Os Estados Unidos sim, são capazes de organizar um mundial melhor que o Brasil e na metade do tempo.
Eu ainda não consigo imaginar o Brasil como sede de uma Copa do Mundo que está tão perto. É esperar para ver o que vai acontecer nos próximos quatro anos!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Quando futebol e política se misturam...


O esporte, e o futebol de forma particular, reproduz sob outra forma os conflitos e os problemas existentes na sociedade, e os transforma em jogadas, em passes, em dribles, em gols. Ou seja, é uma transmutação daquilo que habitualmente seria horrendo, doloroso, brutal, por vezes cruento, e que agora passa a ser um jogo. E há quem afirme, com todas as razões, que o futebol é apenas um jogo, não mais que um jogo. Toda vez que se quiser colocar dentro dele elementos estranhos à sua formulação habitual, trazendo o conflito das pessoas, dos grupos, da afirmação de um sobre o outro acima da mediação democrática da bola, aí se tem outra coisa, que não o futebol.
A despeito disso, a política sempre insistiu em ganhar dividendos com o futebol. Na Copa de 1934, o lema da seleção da Itália fascista era "Vitória ou morte". Aí temos Benito Mussolini, Il Duce, o tirano típico. Ele criou slogans populares que acabaram determinando para o povo italiano, de certa forma, uma realização de desejos. "Pátria ou morte" é demasiado, mas está expresso aí um conflito de forma radical, e que serviu por muito tempo de orientação. Mussolini fez do futebol um sucedâneo de suas ideias, voltando às origens do futebol, fazendo com que o esporte pudesse ser a guerra sob outras formas. Mas, no futebol, a vitória não é a morte do adversário. A vitória é apenas a superação do adversário nos termos dele. Isso é a qualidade maior do jogo: uma proposta de enfrentamento, em termos reconhecidos por todos, com legislação bem integrada e reconhecida também, com arbitragem capaz de criar isenção ou por uma compreensão acima daquele conflito generalizado e suado.
Não se pode reduzir a realidade aos interesses da política ou de um líder político. Em 1978, por exemplo, na Copa da Argentina — eu estava lá —, vigia a ditadura militar do general Videla, que morreu no mês passado. Uma ditadura enérgica, brutal, como não tivemos aqui a rigor — embora não haja ditadura melhor que outra, vale frisar. E, mesmo assim, não se via discurso em praça pública, não se viu passeata, não se viu muito que se pudesse caracterizar a utilização, pelo ditador e por seus asseclas, da Copa. O que ocorreu é que o poder teve de se submeter aos valores do futebol e, muito discretamente, sugerir a afirmação de que aquela era uma Argentina organizada, capaz de sediar uma Copa.
Observe Getúlio Vargas. Foi um presidente de República, criador do Estado Novo, figura histórica do Brasil. Dele se ouviu com clareza a seguinte observação: "Num estádio de futebol, se há futebol, não tem discurso". Interessante. Mesmo quando o São Januário, maior estádio da época, lotava para as festas do 1º de Maio, Vargas tinha receio de que o público não aceitasse manifestações políticas. E tinha razão. Se hoje você vai a um estádio de futebol, com todos esperando o início do jogo, e alguém decide discursar — não importa quem seja — será vaiado. Brutalmente vaiado. O que significa isso? Que o futebol é infenso à política? Não. O futebol é, isso sim, profundamente cioso do seu lugar, aquele espaço onde as coisas se realizam, são verdadeiras e onde podem ser cobradas.
O futebol não divide espaço — ou é ele, ou não é. A qualidade desse esporte não é ser ingênuo, distraído ou fora da realidade, mas o fato de que ele é, absoluta e completamente, dominador.

O poder e a bola
Confira momentos em que política e futebol se confundiram ao longo da história:

O fascismo
Copa de 1934, na Itália de Mussolini. Os donos da casa faziam a saudação fascista no hino e jogavam sob o lema "Pátria ou Morte". Foram campeões.


Feridas curadas
Para curar as chagas da II Grande Guerra era preciso habilidade. Por isso, a Fifa escolheu três sedes "neutras" no pós-guerra: Brasil, em 1950, Suíça, em 1954 e Suécia, em 1958.


Guerra da bola
Uma disputa econômica entre El Salvador e Honduras, nas eliminatórias da Copa de 1970, chegou ao campo de jogo e se estendeu para os campos de batalha. Foi a Guerra do Futebol.


Taça política
Em 1962, o presidente João Goulart fez lobby para Garrincha não ser suspenso durante a Copa e depois comemorou a vitória canarinho tomando champanha na Jules Rimet.


Sheik em campo
Na Copa de 1982, o Sheik do Kuwait desceu da arquibancada para anular um gol da França contra seu país. Alguém teria apitado no público, e os jogadores do Kuwait pararam. Depois da confusão e do turbante em campo, o gol foi invalidado.


Levante húngaro
Em 1956, tanques do Pacto de Varsóvia esmagaram um movimento democratizante na Hungria. Vários jogadores da seleção magiar deixaram o time nacional, em protesto. Inclusive o craque Puskas, que, em 1962, jogou a Copa pela Espanha.


Pra frente, Brasil
A campanha da Copa de 1970 teve a marca da ditadura: o técnico comunista João Saldanha foi afastado em favor de Zagallo, e a comissão técnica reuniu vários militares. O tricampeonato embalou a propaganda de um Brasil gigante e vitorioso.


Bem longe de Videla
O holandês Cruyff e o alemão Breitner não foram à Copa de 1978, na Argentina, em protesto contra a ditadura militar de Jorge Rafael Videla. Os holandeses, ao receberem a medalha de vice-campeões, recusaram-se a cumprimentar os militares.


Paz em campo
Durante a Copa de 1998, EUA e Irã, rivais na política, celebraram a paz no futebol. Os países não se entendiam desde a derrubada do Xá, em 1979. Jogadores dos dois times trocaram flores antes do início da partida, vencida por 2 a 1 pelo Irã.


Vingança malvina
Na Copa do México de 1986, Inglaterra e Argentina se enfrentaram quatro anos após a Guerra das Malvinas. Maradona disse que o jogo serviu de vingança pela derrota militar. E com requintes de crueldade: um gol de mão e outro driblando cinco ingleses.