quinta-feira, 21 de março de 2013

A criação do Estado do Vaticano


Pelos corredores do Vaticano passaram reis, guerras, o melhor da arte e até alguns santos.
Era 11 de fevereiro de 1929 e faltava meia hora para o meio - dia quando um Cadillac preto parou na frente do palácio de Latrão, em Roma. As portas do carro se abriram e o homem mais temido da Itália saiu. Era Benito Mussolini, chefe do regime fascista que governava o país. Dentro do palácio - o quartel general da Cúria Romana, rosto administrativo da Igreja Católica – o Papa Pio XI e seus funcionários mais gabaritados receberam o ditador com apertos de mão. A conversa teve início e Mussolini logo exibiu suas cartas: queria que a Igreja reconhecesse oficialmente o regime – era uma tentativa de neutralizar  o adversário partido popular. A igreja também foi clara ao falar de seus objetivos; pediu o que havia pedido no século XIX, durante o processo de unificação italiana: um Estado soberano. Por volta da 1 hora da tarde, Mussolini assinou o Tratado de Latrão, que conferia ao Papa um território independente dentro de Roma. Em troca a Igreja reconhecia como legítimo o governo controlado pelo “Ducci”.
A rigor, foi nesse dia de inverno, na soturna companhia de um dos mais violentos tiranos do século XX, que nasceu o Estado do Vaticano como ele é hoje: o menor país independente do mundo e a última monarquia absolutista da Europa. Mas o encontro em Latrão foi resultado de uma história muito mais longa, que se enraíza 2000 anos no passado – desde um tempo em que o Papa era apenas o bispo de Roma, uma entre muitas lideranças de uma seita perseguida. Em seu auge, pontífices se declaravam os “senhores do mundo” e desencadeavam guerras sangrentas com um sinal da cruz.  Hoje, o Papado é a mais longeva organização internacional da história. De onde veio, e onde foi parar tanto poder? Para desvendar essa história é preciso retornar às origens do cristianismo, quando Roma virou centro de uma seita judaica nascida nas areias do Oriente Médio...
No início, o cristianismo era uma seita de judeus para judeus. Tanto é verdade que, após a crucificação de Cristo, os apóstolos se mantiveram pregando em Jerusalém. A ideia de que Jesus era o tão aguardado Messias, porém não pegou entre os Judeus. Pelo contrário: os Apóstolos foram tão hostilizados que se viram obrigados a se espalharem pelo Oriente Médio e pregar para novos ouvidos. Foi assim que o Messias passou a ser descrito como o redentor de todos os homens e de todas as raças. O discurso colou. Comunidades chamadas Igrejas (do latim “ecclesia” – assembleia), pipocaram em cidades da Ásia, da África e Europa. E logo chegaram ao centro político da época. A tradição católica assegura que Pedro viajou a Roma por volta do ano 42.
A vida na capital não era fácil: os Cristãos eram perseguidos por se recusar a adorar deuses romanos. O próprio Pedro foi preso e levado ao circo de Nero, uma arena usada para corridas de carruagens e execuções de traidores construída num terreno pantanoso nos subúrbios de Roma. A região era conhecida como “vaticanus”, provável derivação de “vaticus”, antiga aldeia Etrusca que existia lá. Nesse lugar misterioso e algo sinistro, Pedro foi crucificado e enterrado. Mas precavido que era, já havia escolhido um sucessor, Lino, Romano convertido ao cristianismo sobre o qual quase nada se sabe além do nome. E assim a autoridade de Pedro foi transmitida, como continuaria sendo de geração em geração e de bispo em bispo até chegar a Bento XVI – ou 267º herdeiro de São Pedro – ou 265º;  como prefere a Igreja, que riscou de sua lista Estevão que morreu 3 dias após ser eleito, e Cristovão, que tomou o poder à força.
Em resumo: está aí a tese do “primado de Roma”, segundo o qual os bispos romanos são os representantes legítimos de Jesus. Mas, os fatos que sustentam esse dogma, nunca foram unanimidade. Não há prova da passagem de Pedro por Roma. A Bíblia nada diz a respeito. Lendas sobre a viagem e martírio foram coletadas por volta de 312 D.C., na obra de um propagandista da Igreja, Eusébio de Cesaréia.

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