sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A arte de jogar futebol de botão

*Fugindo um pouco da temática central do blog, publicarei algumas pequenas crônicas de minha autoria, que é algo que me gusta muito também. Pra começar, essa aí:
Os meninos que viveram o auge da infância na década de 90 ainda tiveram a oportunidade de jogar o bom e velho futebol de botão, hoje desconhecido para a geração digital. Por sua simplicidade, a disputa atraía a atenção de muitos e também se tornava emocionante, na medida em que só a vitória interessava. Com chuva ou sol, a brincadeira podia acontecer em qualquer lugar, desde que houvesse um companheiro disposto a medir forças e mostrar sua habilidade.
As equipes de botões vinham com adesivos autocolantes dos principais times do Brasil e do exterior, além de inúmeras seleções nacionais. Os mesmos podiam ser adquiridos em livrarias, a um preço baixo, fato pelo qual se tornaram bastante populares. Para a partida ser realizada, utilizava-se um tabuleiro, com as mesmas divisões de um campo de futebol de verdade, colocado em cima de uma mesa ou até mesmo no chão.
Os jogadores eram conduzidos por uma palheta, na tentativa de acertar a bola, formada por um disco minúsculo, geralmente de cor preta. Cada um poderia efetuar, no máximo, três toques e em caso de erro, a posse de bola seria do outro time. Isso deixava o jogo rápido e aberto. Jogadas ríspidas geralmente aconteciam, pois seguidamente atingia-se em cheio o oponente, em vez do alvo. A falta mais comum ocorria quando a bola parava em cima do escudo da equipe, sendo considerado toque de mão.
Não havia tempo estipulado para a duração de cada confronto. Geralmente eles acabavam quando alguém estava levando uma goleada e desta forma desistia, ou então reclamava da “arbitragem”, dizendo que o adversário roubava. No calor do jogo, muitas discussões aconteciam, pois cada um defendia ferrenhamente seus interesses, porém nada que não fosse resolvido no dia seguinte.
O futebol de botão é uma das muitas recordações dos tempos de outrora. Comecei a me interessar por ele quando ganhei Brasil e Estados Unidos, justamente na época da Copa do Mundo de 1994. Nos anos seguintes cheguei a ter mais de 20 equipes, entre clubes nacionais, estrangeiros e seleções; e a coleção só não foi maior porque aqui em São Luiz Gonzaga tinham poucas opções para a compra.
É com nostalgia que lembro as muitas tardes dedicadas exclusivamente a essas disputas, que envolviam principalmente os amigos da vizinhança. Infância como a daquele tempo dificilmente vai existir, pois cada vez mais cedo a tecnologia está presente no dia a dia das crianças, fazendo com que elas deixem para trás hábitos e brincadeiras saudáveis.
Enfim, recordar é viver! Quem nunca jogou futebol de botão não sabe o que perdeu!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

20 de novembro: o Dia da Consciência Negra

Existente desde os anos 60, somente a partir da Lei 10. 639, de 9 de janeiro de 2003, que o Dia da Consciência Negra ganhou maior ênfase. O 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, grande líder da resistência à escravidão, é utilizado para rememorar a opressão sofrida pelos africanos e seus descendentes desde os primórdios da história do Brasil. Além do mais, serve de afirmação da cultura afro na sociedade nacional e contraponto ao 13 de maio, considerado um ato nobre pelas classes dominantes e conservadoras.
A abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, não beneficiou os negros. Ela atendeu exclusivamente aos interesses de latifundiários do setor cafeeiro, que viam na mão-de-obra assalariada dos imigrantes europeus maiores vantagens, pois esses, ao receberem pelo trabalho, não se rebelariam ou fugiriam, como seguidamente acontecia com os cativos. Era mais lucrativo pagar para ter trabalhadores apaziguados, onde o resultado final compensaria todo o investimento.
Desde 1850, com a Lei Eusébio de Queirós, que findou o tráfico negreiro, o Brasil recebia pressões internacionais para terminar definitivamente com a escravidão. Defendia ferrenhamente esse objetivo a Inglaterra, que por ser a maior potência da época, teria um aumento significativo de seu mercado consumidor através da introdução do trabalho assalariado. Em contrapartida, ninguém estava preocupado com a causa humanitária e social, afinal, o Brasil foi o último país da América a abandonar essa prática.
Mesmo após a liberdade, o negro encontrou enormes dificuldades de levar uma vida digna. Ao contrário de outros grupos étnicos, não recebeu terras para produzir e comercializar excedentes, precisando vender sua força a um preço baixo, ou seja, continuou praticamente na mesma situação de antes. Sem acesso à educação, os que tentaram a vida na cidade ficaram à margem da sociedade, vivendo em condições precárias nas periferias das metrópoles surgidas no final do século XIX.
Portanto, o 13 de maio representa pouco para o movimento afro, pois o governo imperial apenas “libertou” os escravos, mas sem reparar os quase quatro séculos de exploração. Assim, tornou-se muito simples assinar a Lei Áurea, deixando de lado as condições das pessoas “beneficiadas” pela mesma. Acreditar que a escravidão foi abolida pela generosidade da Princesa Isabel é muita hipocrisia, caso não fossem as pretensões inglesas e de alguns cafeicultores descontentes, ela teria continuado por muito mais tempo.
No mesmo período, atenuava-se o preconceito racial. Como eram detentores de pequenos lotes agrários, os imigrantes julgavam-se superiores aos negros, embasados por leis locais que favoreciam o estabelecimento de famílias europeias no país. Tal sentimento de superioridade foi perpassado de geração em geração e até hoje está presente, com atitudes racistas proferidas, na maioria das vezes, por descendentes de clãs oriundos do velho continente.
Dessa maneira, merece destaque o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. O ideal seria não precisar de uma lei para reconhecê-lo, mas que o significado estivesse presente na memória de todos. Os povos afros desempenharam valiosa contribuição na construção da identidade brasileira, a partir de seus costumes, crenças, músicas, vocabulário, culinária, entre tantos outros fatores. Não se pode negar também sua herança genética, presente nas características físicas de muitos cidadãos tupiniquins.
Assim, o 20 de novembro constitui-se como uma forma de lembrar a importância do negro para a formação do país, a luta pela igualdade e o fim dos preconceitos. É necessário que essas reflexões não se restrinjam somente a uma data específica, mas estejam presentes sempre, pois um grupo étnico com uma história tão rica merece o respeito de todos, o ano inteiro.