terça-feira, 19 de junho de 2012

A Guerra Fria no futebol: Alemanha Oriental X Alemanha Ocidental na Copa de 1974

Você já imaginou uma partida da Copa do Mundo da FIFA que colocasse frente a frente Brasil contra Brasil, França contra França, ou Itália contra Itália? Provavelmente não, mas basta pensar nessa possibilidade para compreender a singularidade do jogo entre República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) e República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) disputado em Hamburgo no dia 22 de junho de 1974, válido pela primeira fase do Mundial.
Aquele foi o único confronto de todos os tempos entre os dois países separados depois da Segunda Guerra Mundial. A partida foi repleta de emoção e entrou para a história do futebol tanto pela sua importância política quanto pelo resultado surpreendente.
Tudo indicava que seria um duelo absolutamente explosivo. A tensão política que cercava o espetáculo era tanta que os jogadores não fizeram a tradicional troca de camisas em campo após o apito final. Paul Breitner só pediu para trocar de camisa com o autor do gol da vitória, Jürgen Sparwasser, quando ambos já estavam a caminho dos vestiários. Os souvenires ficaram esquecidos por 28 anos, até que os jogadores decidiram colocá-los à disposição por uma boa causa.
As expectativas
Na realidade, ambas as seleções já estavam classificadas para a fase seguinte, mas o "duelo de irmãos" valia a primeira colocação do Grupo 1 e, evidentemente, a glória de derrotar o país vizinho. A Alemanha Ocidental precisava apenas de um empate para se manter na liderança, já que havia vencido as suas duas partidas, contra Chile por 1 a 0 e Austrália por 3 a 0. Do outro lado, o selecionado comandado por Georg Buschner também fizera uma boa campanha. A equipe havia derrotado a Austrália por 2 a 0 e empatado com o Chile em 1 a 1.
Cerca de 60 mil espectadores, entre eles quase 1.500 cidadãos da Alemanha Oriental, lotaram o Volksparkstadion, em Hamburgo, para assistir ao primeiro e único embate da história entre as duas seleções. Não havia dúvidas de quem era o favorito. Do lado ocidental estavam os campeões europeus de 1972 e mundiais de 1954, enquanto a seleção vinda do leste fazia a sua estreia na Copa do Mundo da FIFA.
A partida
Desde o início, o confronto foi marcado por muito respeito de ambos os lados. Nenhuma das seleções queria sair de campo com a derrota, o que as motivou a fazerem de tudo para neutralizar o adversário. Foram raras as chances de gol, mas foi uma boa partida, com as duas equipes mostrando muita garra e determinação. O árbitro uruguaio Ramón Barreto Ruiz mostrou três cartões amarelos — todos para a Alemanha Oriental.
A única grande chance de gol para a RFA foi com o atacante Gerd Müller, que recebeu a bola de costas para o gol aos 39 minutos do primeiro tempo, girou sobre o seu marcador e acertou a trave. Do outro lado, Hans-Jürgen Kreische teve tudo para abrir o placar para a RDA após um cruzamento da esquerda, mas finalizou mal e mandou a bola por cima do gol de Sepp Maier.
Todos pensavam que a partida terminaria sem gols quando aconteceu o lance que surpreendeu o mundo. O goleiro da Alemanha Oriental, Jürgen Croy, agarrou uma cabeçada aos 32 do segundo tempo e rapidamente lançou para Erich Hamann, iniciando o ataque decisivo. O jogador, que havia entrado dez minutos antes, conduziu a bola sem ser incomodado por 30 metros pelo lado direito até que Franz Beckenbauer veio disputar a bola com ele. No entanto, o líbero não conseguiu impedir o lançamento de Hamann para a grande área.
Jürgen Sparwasser dominou a bola como conseguiu, usando a cabeça, o ombro e o peito. Os dois zagueiros, Berti Vogts e Horst-Dieter Höttges, ficaram para trás com a estranha manobra e Sparwasser aproveitou para marcar o sensacional gol da vitória do selecionado que estreava na Copa do Mundo da FIFA. Foi o primeiro gol que a Alemanha Ocidental sofreu depois de 481 minutos e também o único de Sparwasser no torneio.
O craque
Jürgen Sparwasser será para sempre lembrado pela sua atuação no duelo histórico em Hamburgo. O seu gol fez dele um dos esportistas mais conhecidos da Alemanha Oriental. Formado em engenharia mecânica, o jogador disputou 53 partidas pelo seu país, tendo balançado as redes 15 vezes. Na Expo 2000 em Hannover, foi erigido até mesmo um busto em homenagem ao atleta.
As reações
"Se quando eu morrer escreverem apenas 'Hamburgo 1974' na minha lápide, todos já saberão quem foi enterrado ali."
Jürgen Sparwasser, atacante da Alemanha Oriental
"O gol do Sparwasser nos acordou. Se não fosse aquilo, não teríamos sido campeões do mundo."
Franz Beckenbauer, capitão da Alemanha Ocidental
O que aconteceu depois?
A liderança do grupo conquistada com a vitória não foi necessariamente uma vantagem para a Alemanha Oriental. Na fase seguinte, a RDA caiu em um grupo muito difícil e foi eliminada depois de terminar apenas na terceira posição. A equipe do leste perdeu por 1 a 0 do Brasil, empatou em 1 a 1 com a Argentina e foi derrotada por 2 a 0 pela Holanda, que acabou ficando com a segunda colocação do torneio.
Já a Alemanha Ocidental venceu a Iugoslávia por 2 a 0, a Suécia por 4 a 2 e a Polônia por 1 a 0 e se classificou com folga para a final contra a Holanda. Apesar de ter entrado como azarão, o país, que já havia vencido a Copa do Mundo da FIFA 1954, derrotou os holandeses e se sagrou bicampeão mundial.
A participação em 1974 foi a única da Alemanha Oriental no maior evento esportivo do planeta, enquanto a Alemanha Ocidental se classificou para todos os torneios desde então e voltou a alcançar a maior consagração do futebol mundial na Itália 1990.
Melhores momentos dessa partida histórica
Fonte: fifa.com

terça-feira, 12 de junho de 2012

A propaganda nazista nos Jogos Olímpicos de 1936

Os Jogos Olímpicos na cidade alemã de Berlim, em 1936, são lembrados pelo afã de Hitler em provar e impor sua teoria de superioridade da raça ariana. No entanto, o herói olímpico mais popular desta edição foi o atleta negro Jesse Owens.
Berlim oficializou sua candidatura para sediar os jogos em 1932, um ano antes da chegada de Adolf Hitler ao poder, e obteve esse direito conseguindo 20 votos a mais que Barcelona.
Já instalado no poder, o departamento de propaganda do partido Nacional-Socialista (Nazista) rapidamente se deu conta da enorme força do esporte e dos jogos olímpicos na orientação - e neste caso manipulação - da juventude e das massas. Logo, não teve dúvidas em aproveitar a ocasião, utilizando o evento como vitrine para uma concepção político-ideológica.
Não querendo fazer parte do jogo de manipulação fascista de Hitler, Inglaterra, França e Estados Unidos pressionaram o COI para que a Alemanha garantisse a segurança dos participantes e evitasse a segregação racial. Em Berlim 1936, a vaidade não encontrou limites na megalomania nazista. Ademais, não economizaram e investiram mais de US$ 30 milhões na organização, construindo também um novo estádio com capacidade para 110 mil espectadores, diversas instalações para abrigar as competições e uma Vila Olímpica de luxo, rodeada de lagos e bosques a tão somente 10km de Berlim.
Devemos reconhecer que a máquina propagandista do nazismo alemão converteu os jogos de Berlim nos melhores da história até o momento, já que Hitlher ordenou que tudo saísse à perfeição do ponto de vista técnico e também esportivo, com nível muito elevado em quase todas as provas. Como parte das inovações, destaca-se nesta olimpíada a transmissão das competições mais importantes pela televisão. Vinte e cinco telas gigantes foram posicionadas em diferentes espaços públicos de Berlim, para que o povo alemão pudesse assistir aos jogos. O aspecto comercial também foi um êxito nesta edição; foram comercializados quatro milhões de ingressos durante a olimpíada.
A chama sagrada chegou pela primeira vez desde Olimpia, na Grécia, e para percorrer os 3.076km foi necessária a ajuda de 3.300 pessoas no revezamento. A cerimônia inaugural foi solene mas simples, uma ponte entre o estilo grego clássico e o rigor alemão. As competições se desenvolveram novamente ao longo de suas semanas, entre 1º e 16 de agosto, e a presença dos atletas foi numerosa: 4.066 esportistas, dos quais 328 eram mulheres, representando um total de 49 países. O programa incluía 19 esportes. Nesta edição foram incorporados o basquete e o handebol. O pólo apareceu como esporte olímpico pela última vez.
Nas competições, a Finlândia voltou a brilhar nas corridas de longa distância; os escandinavos levaram as três medalhas na final dos 10.000m e o ouro e prata nos 5.000m, enquanto os americanos conseguiam as três medalhas no decatlo.
Os alemães dominaram os arremessos e lançamentos: Hans Woelke bateu o recorde olímpico em arremesso de peso com 16,20m. No lançamento de martelo ganhou Karl Hein, e no dardo o primeiro lugar ficou para Gerhard Stock. Na ginástica com aparelhos, a equipe alemã obteve o ouro. Ressalta-se que a Alemanha não ganhou uma prova sequer nos jogos anteriores. Os triunfos foram justificados pelos nazistas como um atestado do progresso esportivo da juventude, parte do programa de Hitler para o novo Reich.
Jesse Owens: tetracampeão olímpico
Antes do início dos jogos, existiam ressalvas por parte de alguns países no que diz respeito à discriminação de seus atletas não-brancos por parte do regime nazista. Receios que tristemente se confirmaram, com apelidos depreciativos dados aos atletas negros norte-americanos em jornais alemães, por exemplo.
Em Berlim 1936 foi escrita uma das páginas mais brilhantes do movimento olímpico como integrador e de reconhecimento à igualdade de todos os seres humanos. Jesse Owens, um corredor de raça negra dos EUA proveniente da Universidade de Ohio, bateu o recorde mundial nas semifinais dos 100m, com 10"02, diante da complacência de Hitler. Esta ocasião significou uma primeira chamada de atenção para o governante alemão e suas desafortunadas teorias sobre a inferioridade das raças não-arianas, que pelo menos nas pistas não foram cumpridas.
Owens passaria à história como um dos melhores atletas de todos os tempos, graças à performance nestes jogos: ganhou o ouro nos 100m, 200m, salto à distância e no revezamento 4x100m. Bateu ou igualou no mesmo dia, em um espaço de 100 minutos, cinco marcas mundiais diante do olhar incrédulo do Führer, que se negou a premiar o atleta norte-americano, abandonando o estádio.
A serenidade, habilidade fenomenal e cavalheirismo converteram Owens em um ícone, inclusive entre o público alemão. Depois de disputar estas olimpíadas, passou ao profissionalismo e se dedicou às apresentações.
Fonte: Terra

terça-feira, 5 de junho de 2012

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos: por trás do romantismo havia um protesto!

Mesmo sem nunca ter tido problemas com a ditadura militar dos anos 60 e 70, o "rei" Roberto Carlos foi genial ao compor uma música de protesto contra o regime político brasileiro da época. Trata-se de "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", que com uma boa dose de romantismo passou batida à censura e conquistou os corações das jovens apaixonadas. Até hoje poucos conseguem perceber a verdadeira mensagem que a canção apresentava.
Para entendê-la, é preciso voltar até 1969, quando Caetano Veloso partiu para o exílio em Londres. Notadamente, suas músicas protestavam contra a situação política brasileira do período em questão. Assim, em 1971, Roberto Carlos lançava "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", em homenagem ao amigo que se encontrava exilado na Inglaterra. Naquela época, Caetano ostentava uma vasta cabeleira, daí o motivo do nome da música.
Romantismo à parte, várias passagens da letra apresentam mensagens de protesto. Vamos a elas:
- "Janelas e portas vão se abrir, pra ver você chegar e ao se sentir em casa, sorrindo vai chorar." Mesmo longe, ele jamais seria esquecido. "Em casa" seria obviamente o Brasil.
- "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante." "Mundo tão distante" também seria o Brasil, afinal, o cara estava do outro lado do Atlântico.
- "Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente, você só deseja agora, voltar pra sua gente." "Voltar pra sua gente" ou voltar para o Brasil. Era o desejo de qualquer exilado político.
- "Um dia eu vou ver você chegando num sorriso, pisando a areia branca, que é seu paraíso." Seria o fim da ditadura militar, que permitiria o retorno dos exilados ao país, fato que teve início a partir de 1979.
Sorte que a censura da época era um tanto burra, que não conseguia perceber certos protestos. E assim, subliminarmente, Roberto Carlos fez uma boa crítica e ainda por cima agradou seu público fiel, os apaixonados de plantão!
OBS: o mesmo governo militar que motivou o protesto de Roberto Carlos, o transformou em "rei", pois ele era um bom moço que não criticava explicitamente a política da época. Mas isso é assunto para outra postagem.