quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Programa de índio

O tempo passa, mas muitos costumes teimam em permanecer vivos na sociedade, apesar dos anos e dos séculos. Várias pessoas fazem atividades que sequer sabem sua origem, seja por passatempo, lazer ou até mesmo por necessidade. Um pouco de conhecimento histórico pode ajudar a deixar essa ideia mais clara.
Para compreender como aspectos do passado continuam presentes na sociedade são-luizense, é preciso voltar no tempo, mais precisamente no período missioneiro dos séculos XVII e XVIII. Naquela época, a então redução de São Luiz Gonzaga estava estruturada no centro da cidade, nos arredores do que hoje é a Praça da Matriz, que também era a praça do povoado. A administração ficava sob responsabilidade dos padres jesuítas, que concediam algumas mordomias aos caciques guaranis, oferecendo-lhes cargos políticos e permitindo a poligamia em troca de apoio e confiança. Existia uma sociedade hierarquizada, com os religiosos implantando disciplina militar que deveria ser obedecida por todos e que realmente funcionava.
O regime de trabalho era extremamente organizado e rígido, com as atividades diárias iniciando por volta das cinco horas da manhã (horário em que os índios despertavam para as orações matinais) e realizadas até os últimos raios solares, de segunda a sábado. A economia missioneira estava voltada para a agricultura. Cada família possuía sua própria horta, chamada Amambaé, onde retiravam alimentos para sua subsistência. Ainda existia a terra coletiva, o Tupambaé, onde três vezes por semana os homens produziam para aquelas pessoas que não tinham condições de trabalhar, como as crianças órfãs, idosos, mulheres viúvas e solteiras. Nesse contexto, a pecuária também se destacava com as invernadas, pequenos rebanhos trazidos das estâncias que se localizavam no atual pampa gaúcho e que serviam para abastecer a população por determinado período.
Em virtude da jornada de trabalho ser bastante extensa, o domingo (e algum eventual feriado santo) era o único dia dedicado ao descanso. Nele, os indígenas, após acompanharem a missa pela manhã, tinham o dia livre para realizar outras atividades, como praticar jogos; colocar a conversa em dia, aproveitando as sombras dos alpendres; saborear um mate; tocar seus instrumentos musicais e executar as canções ensinadas pelos jesuítas. Todas essas atividades eram desempenhadas na Praça da Redução, que tinha um papel social muito importante naquela época, pois era o único espaço disponível para isso, além de ser amplo, aberto, sem arborização e de ter um acesso fácil, pois as casas dos índios se encontravam no seu entorno.
Nada muito diferente dos domingos atuais, pois é sempre nesse dia da semana que as pessoas se encontram na Praça da Matriz, que apresenta intenso movimento. Pouca coisa mudou em relação àquele tempo: alguns vão à missa; outros caminham; os veículos de tração animal foram substituídos pelos carros; as músicas por batidas que poucos entendem; os jogos de agora são os da dupla Grenal que passam na televisão; as conversas acontecem nos bancos da praça ou então nas mesas de bares e com a consolidação da energia elétrica foi possível estender os domingos muito além dos últimos raios solares. Além disso, o velho e bom chimarrão que também era sorvido na praça da redução aos domingos continua presente, pois muitos carregam suas térmicas e cuias.
Sem saber, as pessoas praticam todos os domingos um bom e velho programa de índio, pois repetem os mesmos atos que há mais de 300 anos nossos ancestrais guaranis faziam. Porém, muitas delas não têm noção do que estão fazendo e consideram, pejorativamente, programa de índio tudo aquilo que traz tédio e pouca animação. Por isso, pense bem antes de falar, pois você pode estar fazendo um semanalmente!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos

“O tempo passou, claro que passaria” e 2017 está aí, batendo à porta. É chegada a época em que as pessoas desejam votos recíprocos de sucesso e felicidades. Tomara que não sejam efêmeros e possam realmente estar presentes todos os dias do novo ano. Como sou avesso a esses clichês, que por mais bem intencionados que possam ser, parecem mesmo frases decoradas e repetidas, prefiro fazer de forma diferente. Para tanto, como já dissera certa vez o mestre Humberto Gessinger, “entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos”, compilei alguns trechos das músicas dos Engenheiros do Hawaii para desejar um feliz 2017.
Um novo ano sempre traz consigo sentimentos de esperança e renovação, tão necessários nessa segunda década do século XXI, onde a imoralidade, a ganância, o desrespeito, a pobreza e orgulho predominam. “Falta pão, o pão nosso de cada dia e sobra pão, o pão que o diabo amassou”. “Hoje o tempo voa nas asas de um avião, sobrevoa os campos da destruição” cometida por seres humanos que se julgam superiores aos seus semelhantes, “nesta terra de gigantes, que trocam vidas por diamantes”. “Pensei que era liberdade, mas na verdade eram as grades da prisão".
Enquanto coletividade, “já perdemos muito tempo brincando de perfeição, esquecemos o que somos: simples de coração”. Mas podemos melhorar, pois é “fácil achar o caminho a seguir num mapa com lápis de cor”. “Não precisamos saber para onde vamos, nós só precisamos ir”, afinal, “somos o que há de melhor, somos o que dá para fazer".
Comece a mudança por você mesmo, faça a diferença para aqueles que estão perto e não espere pelos outros. Lembre-se que “a medida de amar é amar sem medida”. “Perdoe o que puder perdoado, esqueça o que não tiver perdão.” Valorize quem está perto de você e “se faltar calor a gente esquenta, se ficar pequeno a gente aumenta e se não for possível, a gente tenta”. Tenha calma e quando nada der certo, “a gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão".
Que 2017 seja “por amor as causas perdidas”, com muitas “páginas em branco, fotos coloridas”. Só depende de você escrever belas poesias!
“Eu tive um sonho, o mesmo do outro dia, lembranças do futuro que a gente merecia."
Feliz ano novo, embalado sempre pela poesia dos Engenheiros do Hawaii!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Doutores do asfalto

Ontem à noite, quando retornava da festa dos professores da escola, passei em frente ao posto Shell no exato momento da chegada dos ônibus universitários. Inevitavelmente fui tomado por um forte sentimento nostálgico, ao lembrar dos tempos de faculdade de História em Santo Ângelo e dos quatro anos de estrada. Apesar de todo o cansaço, dificuldade e imaturidade, aquela época era muito boa e divertida; até hoje guardo as melhores recordações em minha memória.
A aventura nossa de cada dia iniciava-se pouco depois das 18 horas. Eu embarcava na parada em frente ao posto Shell (que na época ainda era Esso e até hoje muitos o chamam assim), que ficava três quadras de casa. O balanço do ônibus tinha o mesmo efeito de uma canção de ninar, afinal, logo depois do trevo da CESA já estava dormindo, sendo acordado apenas por algum colega ao chegar na universidade. O sono tinha um efeito renovador, pois havia trabalhado o dia inteiro e somente ele para me deixar ligado a aula. Infelizmente, hoje não tenho mais esse privilégio de sestear antes dos estudos.
Apesar da constante disputa de interesses, o ônibus universitário era o local mais democrático do mundo. Tinham aqueles que preferiam dormir, como eu. Outros se dedicavam a contar piadas e histórias mirabolantes, uns a jogar truco, os cdfs iam estudando ou lendo o trajeto inteiro, os certinhos sentavam bem na frente e os casais apaixonados se pegavam no fundão, geralmente na volta, aproveitando-se do escurinho. A sexta-feira, principalmente no início do semestre, era o dia mais divertido, especialmente no retorno. A galera fazia uma vaquinha e comprava cerveja para ser degustada durante a viagem. Uns abusavam e passavam mal, outros ficavam bem mais “fáceis”. O posto em São Miguel era parada obrigatória para comprar polenta banhada em óleo, altamente rica em colesterol. Tudo era uma festa!
Podíamos saber pouco de matemática, direito, história ou biologia, mas conhecíamos os segredos da estada em que viajávamos todo dia. Chegar atrasado na aula, furar um pneu ou acontecer um problema mecânico, parar por longos minutos porque estavam consertando a estrada, testemunhar acidentes e motoristas imprudentes, enfrentar temporais, dar “carona” para os colegas do outro ônibus porque o deles estragou, levar uma ralhada de quem queria dormir... Esses eram fatos comuns do nosso cotidiano e que tornavam a jornada mais emocionante.
Passaram-se sete anos desde a minha formatura e a saudade é cada vez maior! Hoje eu não teria mais a mesma disposição para essas epopeias, assumi novos compromissos e estou mais velho, mas aquele tempo foi muito bom, uma baita experiência de vida.