terça-feira, 11 de julho de 2017

O dia errado

Helena e Menelau eram amigos no “feice” havia dois anos. Não se conheciam pessoalmente, mas o interesse era recíproco; sempre curtiam as postagens do outro e assim a vida seguia no mundo digital. Ela achava o rapaz muito engraçado e divertido, enquanto ele adorava o senso crítico de Helena, bem como sua beleza e inteligência. Porém nenhum deles tinha a menor ideia das considerações do outro, afinal, nunca haviam se falado.
Helena torcia para que Menelau, quem sabe um dia, puxasse conversa. Sua timidez a impedia de tomar a iniciativa. Ele, por sua vez, seguidamente pensava na possibilidade, mas temia a reação da moça, pois seu jeito engraçado, quase cômico de levar a vida, muitas vezes era confundido com infantilidade e imaturidade.
O tempo passou e a situação continuava idêntica. Até que em certa noite chuvosa de inverno, Menelau viu Helena online e finalmente decidiu puxar conversa. Era o momento certo! O tédio de um sábado à noite, misturado com o barulho da chuva caindo no telhado, criava um cenário bucólico que seria facilmente superado através de uma conversa legal com alguém interessante.
Menelau então disse “oi”.
Helena achou Menelau a pior pessoa do mundo.
Helena estava de TPM...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Programa de índio

O tempo passa, mas muitos costumes teimam em permanecer vivos na sociedade, apesar dos anos e dos séculos. Várias pessoas fazem atividades que sequer sabem sua origem, seja por passatempo, lazer ou até mesmo por necessidade. Um pouco de conhecimento histórico pode ajudar a deixar essa ideia mais clara.
Para compreender como aspectos do passado continuam presentes na sociedade são-luizense, é preciso voltar no tempo, mais precisamente no período missioneiro dos séculos XVII e XVIII. Naquela época, a então redução de São Luiz Gonzaga estava estruturada no centro da cidade, nos arredores do que hoje é a Praça da Matriz, que também era a praça do povoado. A administração ficava sob responsabilidade dos padres jesuítas, que concediam algumas mordomias aos caciques guaranis, oferecendo-lhes cargos políticos e permitindo a poligamia em troca de apoio e confiança. Existia uma sociedade hierarquizada, com os religiosos implantando disciplina militar que deveria ser obedecida por todos e que realmente funcionava.
O regime de trabalho era extremamente organizado e rígido, com as atividades diárias iniciando por volta das cinco horas da manhã (horário em que os índios despertavam para as orações matinais) e realizadas até os últimos raios solares, de segunda a sábado. A economia missioneira estava voltada para a agricultura. Cada família possuía sua própria horta, chamada Amambaé, onde retiravam alimentos para sua subsistência. Ainda existia a terra coletiva, o Tupambaé, onde três vezes por semana os homens produziam para aquelas pessoas que não tinham condições de trabalhar, como as crianças órfãs, idosos, mulheres viúvas e solteiras. Nesse contexto, a pecuária também se destacava com as invernadas, pequenos rebanhos trazidos das estâncias que se localizavam no atual pampa gaúcho e que serviam para abastecer a população por determinado período.
Em virtude da jornada de trabalho ser bastante extensa, o domingo (e algum eventual feriado santo) era o único dia dedicado ao descanso. Nele, os indígenas, após acompanharem a missa pela manhã, tinham o dia livre para realizar outras atividades, como praticar jogos; colocar a conversa em dia, aproveitando as sombras dos alpendres; saborear um mate; tocar seus instrumentos musicais e executar as canções ensinadas pelos jesuítas. Todas essas atividades eram desempenhadas na Praça da Redução, que tinha um papel social muito importante naquela época, pois era o único espaço disponível para isso, além de ser amplo, aberto, sem arborização e de ter um acesso fácil, pois as casas dos índios se encontravam no seu entorno.
Nada muito diferente dos domingos atuais, pois é sempre nesse dia da semana que as pessoas se encontram na Praça da Matriz, que apresenta intenso movimento. Pouca coisa mudou em relação àquele tempo: alguns vão à missa; outros caminham; os veículos de tração animal foram substituídos pelos carros; as músicas por batidas que poucos entendem; os jogos de agora são os da dupla Grenal que passam na televisão; as conversas acontecem nos bancos da praça ou então nas mesas de bares e com a consolidação da energia elétrica foi possível estender os domingos muito além dos últimos raios solares. Além disso, o velho e bom chimarrão que também era sorvido na praça da redução aos domingos continua presente, pois muitos carregam suas térmicas e cuias.
Sem saber, as pessoas praticam todos os domingos um bom e velho programa de índio, pois repetem os mesmos atos que há mais de 300 anos nossos ancestrais guaranis faziam. Porém, muitas delas não têm noção do que estão fazendo e consideram, pejorativamente, programa de índio tudo aquilo que traz tédio e pouca animação. Por isso, pense bem antes de falar, pois você pode estar fazendo um semanalmente!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos

“O tempo passou, claro que passaria” e 2017 está aí, batendo à porta. É chegada a época em que as pessoas desejam votos recíprocos de sucesso e felicidades. Tomara que não sejam efêmeros e possam realmente estar presentes todos os dias do novo ano. Como sou avesso a esses clichês, que por mais bem intencionados que possam ser, parecem mesmo frases decoradas e repetidas, prefiro fazer de forma diferente. Para tanto, como já dissera certa vez o mestre Humberto Gessinger, “entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos”, compilei alguns trechos das músicas dos Engenheiros do Hawaii para desejar um feliz 2017.
Um novo ano sempre traz consigo sentimentos de esperança e renovação, tão necessários nessa segunda década do século XXI, onde a imoralidade, a ganância, o desrespeito, a pobreza e orgulho predominam. “Falta pão, o pão nosso de cada dia e sobra pão, o pão que o diabo amassou”. “Hoje o tempo voa nas asas de um avião, sobrevoa os campos da destruição” cometida por seres humanos que se julgam superiores aos seus semelhantes, “nesta terra de gigantes, que trocam vidas por diamantes”. “Pensei que era liberdade, mas na verdade eram as grades da prisão".
Enquanto coletividade, “já perdemos muito tempo brincando de perfeição, esquecemos o que somos: simples de coração”. Mas podemos melhorar, pois é “fácil achar o caminho a seguir num mapa com lápis de cor”. “Não precisamos saber para onde vamos, nós só precisamos ir”, afinal, “somos o que há de melhor, somos o que dá para fazer".
Comece a mudança por você mesmo, faça a diferença para aqueles que estão perto e não espere pelos outros. Lembre-se que “a medida de amar é amar sem medida”. “Perdoe o que puder perdoado, esqueça o que não tiver perdão.” Valorize quem está perto de você e “se faltar calor a gente esquenta, se ficar pequeno a gente aumenta e se não for possível, a gente tenta”. Tenha calma e quando nada der certo, “a gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão".
Que 2017 seja “por amor as causas perdidas”, com muitas “páginas em branco, fotos coloridas”. Só depende de você escrever belas poesias!
“Eu tive um sonho, o mesmo do outro dia, lembranças do futuro que a gente merecia."
Feliz ano novo, embalado sempre pela poesia dos Engenheiros do Hawaii!