sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Flashback anos 80

A juventude de hoje não tem a mínima ideia de como era viver nos anos 80. Parece um paradoxo falar isso, afinal, eu nasci em 1988, porém nos anos 90 muitas coisas da década anterior continuavam presentes em nossas vidas. A modernidade líquida de Bauman ainda não havia despontado, as mudanças eram lentas e graduais e para algo ser considerado obsoleto levava-se muito tempo.
Nos últimos dias letivos de 2017, explicava para meus alunos do nono ano sobre a Guerra Fria. A aula transcorria em sua normalidade, com debates aqui e acolá, até que, como não poderia ser diferente, veio à tona o Muro de Berlim. Após as explicações pertinentes, despretensiosamente, alguém lá do fundão perguntou quando ele caiu.
- Mil novecentos e oitenta e nove - respondi.
- Noooossa! Faz muito tempo isso, hein?!
Vinte e oito anos apenas, pensei comigo. Mas para quem está na faixa dos quinze, isso é muito tempo, quase o dobro da idade deles, impossível de mensurar. Eu sou mais velho do que o Muro de Berlim, e isso fez eu me sentir um idoso!
Mil novecentos e oitenta e nove! Naquela época as pessoas ficavam sabendo das notícias do mundo somente a partir das 20 horas, quando começava o Jornal Nacional, ou através da assustadora vinheta do plantão da Globo, para os que tinham a oportunidade de estar com a televisão ligada no meio da tarde. Quem perdia a programação jornalística precisava esperar até o dia seguinte, para tomar conhecimento dos fatos através dos jornais impressos. Antenas parabólicas não haviam se popularizado ainda e TV’s por assinatura inexistiam, fazendo com que na imensa maioria das residências o único canal sintonizado fosse justamente a Globo, com auxílio do Bombril anexado nas duas antenas para melhorar a imagem.
Internet, então, ninguém sabia o que era. Não passava daquela ferramenta militar desenvolvida pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Sua utilização comercial iniciou no Brasil apenas em 1995, de forma tímida e restrita. Somente em meados da década seguinte que seu uso se popularizou, através da banda larga, que permitia o acesso à rede mundial de computadores a qualquer hora do dia. Celulares sequer mandavam mensagens, serviam apenas para efetuar ligações e ninguém imaginava que um dia poderíamos acessar a internet através deles. Portanto, até os primeiros anos do século XXI, no que diz respeito à informação, ainda estávamos ligados à década de 80.
Fiz todas as contextualizações relatadas nos dois parágrafos anteriores. Professor de História adora contextualizar. Aqueles adolescentes não conseguiam acreditar que em 1989 as pessoas ficaram sabendo somente à noite que o Muro de Berlim havia caído. Compreende-se, pois é difícil para uma geração que toma conhecimento em tempo real, no meio da aula, dos atentados terroristas na Europa, entender que há bem pouco tempo atrás as notícias demoravam a chegar. Me senti mais velho ainda, quase o tio da Sukita.
Relembrar aquele tempo traz boas recordações. Desconectados, cuidando apenas de nossos afazeres diários, reservando alguns minutos da noite para nos inteirarmos dos acontecimentos, não éramos escravos da tecnologia e vivíamos muito mais felizes. Talvez falte para o século XXI um pouco da essência dos anos 80. Enquanto isso, sigo escutando “Money Changes Everything”, na inconfundível voz da Cyndi Lauper.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O dia errado

Helena e Menelau eram amigos no “feice” havia dois anos. Não se conheciam pessoalmente, mas o interesse era recíproco; sempre curtiam as postagens do outro e assim a vida seguia no mundo digital. Ela achava o rapaz muito engraçado e divertido, enquanto ele adorava o senso crítico de Helena, bem como sua beleza e inteligência. Porém nenhum deles tinha a menor ideia das considerações do outro, afinal, nunca haviam se falado.
Helena torcia para que Menelau, quem sabe um dia, puxasse conversa. Sua timidez a impedia de tomar a iniciativa. Ele, por sua vez, seguidamente pensava na possibilidade, mas temia a reação da moça, pois seu jeito engraçado, quase cômico de levar a vida, muitas vezes era confundido com infantilidade e imaturidade.
O tempo passou e a situação continuava idêntica. Até que em certa noite chuvosa de inverno, Menelau viu Helena online e finalmente decidiu puxar conversa. Era o momento certo! O tédio de um sábado à noite, misturado com o barulho da chuva caindo no telhado, criava um cenário bucólico que seria facilmente superado através de uma conversa legal com alguém interessante.
Menelau então disse “oi”.
Helena achou Menelau a pior pessoa do mundo.
Helena estava de TPM...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Programa de índio

O tempo passa, mas muitos costumes teimam em permanecer vivos na sociedade, apesar dos anos e dos séculos. Várias pessoas fazem atividades que sequer sabem sua origem, seja por passatempo, lazer ou até mesmo por necessidade. Um pouco de conhecimento histórico pode ajudar a deixar essa ideia mais clara.
Para compreender como aspectos do passado continuam presentes na sociedade são-luizense, é preciso voltar no tempo, mais precisamente no período missioneiro dos séculos XVII e XVIII. Naquela época, a então redução de São Luiz Gonzaga estava estruturada no centro da cidade, nos arredores do que hoje é a Praça da Matriz, que também era a praça do povoado. A administração ficava sob responsabilidade dos padres jesuítas, que concediam algumas mordomias aos caciques guaranis, oferecendo-lhes cargos políticos e permitindo a poligamia em troca de apoio e confiança. Existia uma sociedade hierarquizada, com os religiosos implantando disciplina militar que deveria ser obedecida por todos e que realmente funcionava.
O regime de trabalho era extremamente organizado e rígido, com as atividades diárias iniciando por volta das cinco horas da manhã (horário em que os índios despertavam para as orações matinais) e realizadas até os últimos raios solares, de segunda a sábado. A economia missioneira estava voltada para a agricultura. Cada família possuía sua própria horta, chamada Amambaé, onde retiravam alimentos para sua subsistência. Ainda existia a terra coletiva, o Tupambaé, onde três vezes por semana os homens produziam para aquelas pessoas que não tinham condições de trabalhar, como as crianças órfãs, idosos, mulheres viúvas e solteiras. Nesse contexto, a pecuária também se destacava com as invernadas, pequenos rebanhos trazidos das estâncias que se localizavam no atual pampa gaúcho e que serviam para abastecer a população por determinado período.
Em virtude da jornada de trabalho ser bastante extensa, o domingo (e algum eventual feriado santo) era o único dia dedicado ao descanso. Nele, os indígenas, após acompanharem a missa pela manhã, tinham o dia livre para realizar outras atividades, como praticar jogos; colocar a conversa em dia, aproveitando as sombras dos alpendres; saborear um mate; tocar seus instrumentos musicais e executar as canções ensinadas pelos jesuítas. Todas essas atividades eram desempenhadas na Praça da Redução, que tinha um papel social muito importante naquela época, pois era o único espaço disponível para isso, além de ser amplo, aberto, sem arborização e de ter um acesso fácil, pois as casas dos índios se encontravam no seu entorno.
Nada muito diferente dos domingos atuais, pois é sempre nesse dia da semana que as pessoas se encontram na Praça da Matriz, que apresenta intenso movimento. Pouca coisa mudou em relação àquele tempo: alguns vão à missa; outros caminham; os veículos de tração animal foram substituídos pelos carros; as músicas por batidas que poucos entendem; os jogos de agora são os da dupla Grenal que passam na televisão; as conversas acontecem nos bancos da praça ou então nas mesas de bares e com a consolidação da energia elétrica foi possível estender os domingos muito além dos últimos raios solares. Além disso, o velho e bom chimarrão que também era sorvido na praça da redução aos domingos continua presente, pois muitos carregam suas térmicas e cuias.
Sem saber, as pessoas praticam todos os domingos um bom e velho programa de índio, pois repetem os mesmos atos que há mais de 300 anos nossos ancestrais guaranis faziam. Porém, muitas delas não têm noção do que estão fazendo e consideram, pejorativamente, programa de índio tudo aquilo que traz tédio e pouca animação. Por isso, pense bem antes de falar, pois você pode estar fazendo um semanalmente!